quarta-feira, 5 de agosto de 2015

DA SAUDADE À ESPERANÇA

(PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DO AMOR)
Ao lembrar o tempo da saudade das minhas filhas crescendo, relembrei o banquinho que projetei no jardim, como lugar de namoro que elas nem perceberam e que meu pai estranhou porque, à época, a minha princesa só tinha dois aninhos. Então, antecipando-me à saudade do que eu ainda não vivera, pensei na que eu reviveria quando minhas filhas assumissem suas vidas e eu desejasse netos. Mas não era saudade. Era esperança. E, enfim, ela chegou: esperança misturada à saudade renovando o amor.
Saudade das filhas crianças revivida na neta que realiza a esperança. 
Esperança de corrigir com as filhas na educação da neta as falhas da educação delas. 
Mas, como? Já nem tenho mais tal direito. Embora ainda tenha o dever de guiar minha filha na criação da minha neta. O dever, contudo, não é uma obrigação, pois não é um imperativo legal nem físico. É apenas uma responsabilidade derivada da consciência de que filha e neta carecem de cuidados. O direito, porém, é uma conquista ou uma concessão, tal como o amor é conquistado ou concedido. 
Costuma-se perguntar se o amor pelos netos é duplicado. Respondo que não. Pois não sei calcular o amor. Apenas sinto-o renovado: o amor à filha se renova com a neta, conforme a convivência. E não o concebo sem isto: participação. Nele há concessão e conquista.
O amor aspira cuidado: carece-lhe e almeja-o para se concretizar. O cuidado inspira o amor: concretiza-o e o renova. Não concebo o amor sem cuidado. Mas somente este pode ser medido, uma vez que é concreto, como atividade pela qual aquele se manifesta. Ele, portanto, pode ser duplo, ou triplo ou calculado no tempo, no espaço, num indivíduo, sob determinadas circuntâncias. Isso, talvez, seja o que confunde as pessoas, induzindo-as a falar que "amor a neto é dobrado".
Não. Dobrado é o cuidado, porque há mais a participar com a filha e também com a neta; há mais a tornar-se parte delas como amadas e delas em mim como amante. O amor, no entanto, é apenas renovado, ou seja, revitalizado pela graça de ser reconhecido e aceito: valorizado, pela conquista e pela concessão. 
Que amor resiste ao descuido? Se não concedido, como ser conquistado? Não é o tempo que mata ou alimenta o amor: mas o descuido ou o cuidado. Se o ser amado não cuida do amor recebido, este perecerá: deixando só saudade de um tempo perdido. Se o amante descuida do ser amado, este não o reconhecerá, porque o critério do amor é o cuidado. E qual o critério do cuidado? Como saber que há descuido ou excessivo zelo pelo outro, o que desvirtua ou perverte o amor? Talvez seja a concessão sem conquista, tal como o direito não conquistado desvirtua ou perverte a liberdade, assim como os privilégios herdados desvirtuam as pessoas e, quando perdidos, perverte-as.
Eis que surge um dilema lógico entre conquista e concessão; entre amor e cuidado. E desconfio que se há dilema é porque a relação não é lógica, mas dialética, cuja superação exige um terceiro elemento. 
Como superar a dialética entre o amor e o cuidado, que se completam como ato e potência, mas não são a mesma coisa? 
O que é o cuidado se não a realização do amor? O que é o amor se não o desejo de cuidar do outro? Como medir o cuidado para que ele não desvirtue ou perverta o amor? Se o cuidado é o critério do amor, qual o critério do cuidado se não o respeito? Como é possível conquistar o amor do outro sem o respeitar? Por que não se valoriza o amor recebido ou doado em demasia, se não devido à falta de respeito para com o outro ou para consigo mesmo? 
Mas, o que é o respeito se não o reconhecimento do valor do outro? E em que consiste o valor do Outro se não no fato de que ele não é um objeto de posse, mas um sujeito de desejos e de liberdade, embora limitada, capaz de decidir conquistar direitos e doar-se em dever, se conquistado? E como conquistá-lo se não pelo cuidado e pelo respeito, pelos quais se reconhecerá a dimensão do amor?  
Eis o aprendizado que espero vivenciar com minha neta, para que o amor se renove nela, pela saudade do que vivemos - eu com meus pais e, depois, com minhas filhas e com ela -, e pela esperança do que elas hão de viver se renovando em gerações.

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