domingo, 10 de novembro de 2013

Dar Tempo ao Tempo

Por que se deixar levar pelo tempo?
...Aonde ele me levará, se não à velhice do que já sou?
E o que fazer ao chegar, se tudo o que me apetecia já passou?


Por que dar tempo 
ao tempo?


O tempo não tem nada 
a nos dar, 
exceto tempo.
Como um deus, 
o que ele nos dá também nos tira
Pois, se não o consumimos, 
perdemo-lo,  
por ele consumidos.


De que vale deixar-se levar pelo tempo
Se se quer algo fazer 
mais do que ter?
Além de nada lhe dar
Ainda haverá de cobrar
pelo que você não fez 
do seu talento...
pelo seu modo de viver...

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Amizade, Joias e Bugigangas

 Duas meninas conversavam empolgadíssimas. O tema era joias e bugigangas. Porém, como sempre, uma parecia ter muito mais entusiasmo em falar do que a outra em ouvir. Então, certamente falava mais aquela que tinha mais o que dizer sobre joias, porque, possivelmente, as tinha em maior quantidade. A outra, por sua vez, parecia sentir mais prazer em ouvir, meio encantada com tanta beleza em exposição pela boca da sua amiga; embora, por vezes, parecesse também querer falar um pouco do pouco que tinha em bugigangas que ela mesma confeccionava, mesmo que fosse apenas para desfila-las em reverência à joalheria daquela.
De repente, a mais ouvinte perguntou para a mais falante onde ela guardava suas jóias. Ao que ela respondeu: – No meu quarto.
Sim, mas em quê?
Num porta-joias que minha mãe comprou.
Aí a amiga achou o filão sobre o qual tinha mais o que falar, pois havia produzido ela mesma a sua própria caixinha de joias: bela, prática e econômica. Então a esbanjou compensatoriamente, quer pela beleza, quer pela praticidade, quer pela economia e até pela autoridade de artesã. Parecia simplesmente a sua joia rara feita para guardar bugigangas.
Impressionada, a outra quis comprar-lhe a peça, argumentando sê-la mais adequada para guardar preciosidades do que quinquilharias. Ao que a amiga retrucou: – Obrigada pelo interesse! Mas acho que você precisa aprender a valorizar mais o que não tem preço!
Observei, pois, que enquanto a menina ouvinte tratava a amiga falante como se fosse a sua própria caixinha de joias, peça construída com muito esforço, na qual ela tentava repousar seus tristes segredos, talvez até apenas para não a deixar vazia, a amiga falante, por sua vez, via a amiga ouvinte igualmente ao seu porta-joias, na verdade uma bugiganga pelo que fora pago um preço: útil! Porém, como mera vitrine para exibir suas posses.

Então fiquei pensando: será que a amizade é assim como uma caixinha de joias: pronta para guardar e expor os penduricalhos que apenas passam por ela, mesmo quando eles se acham mais valiosos que ela, tendo-a como uma bugiaria? Afinal, seria a amizade uma joia ou como um porta-joias?

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

ÂNIMA

Chega a morte
Vai-se alguém
E um corpo exanimado
Deixa em desânimo
Corpos cujo espírito
Em frio exame
Diz "amém!"

Assim cessa a dor
De quem já não se aliviaria
Cessa-lhe o ar da vida
A luz, o som, o sabor...
Finda assim sua agonia da existência
E à porta aberta da ignorância
Que fique a áurea linda
Da divina instância
Que faz da alma essência: 
O amor


Aos mortos vão as flores
E aos vivos, a lição da lide
Antes que a morte chegue
E em desânimo regue as dores
De quem à sorte ocupa a vida
Preocupado com a morte

Anima-te, Amor!
Anima-nos!
Animai-vos vós animais!
Pois os corpos vão
E os amores animam os que ficam
E os espíritos sãos dizem "amem!"
E amém!
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