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segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

CARTA ABERTA À OPOSIÇÃO UERN DIFERENTE

Caras/os Companheiras/os!

Perdoem-me pelo prolongamento do meu tempo neste grupo!

Tentei poupá-los de qualquer comentário que lhes obrigasse a me excluírem, pois eu pretendia apresentar-lhes um textículo (com X mesmo... rs) registrando as minhas razões para eu próprio me excluir, embora já as conheça quem participou da reunião na qual expus meus questionamentos.

Outras tarefas, no entanto, têm me feito adiar, até para não personificar, uma análise de alguns discursos neste grupo reveladores de como a linguagem revela o humano, principalmente na política.

Mas a angústia ética em continuar acessando as mensagens e estratégias deste grupo tendo que as ignorar sem as rebater, apesar da minha discordância, me impele a despedir-me sem o textículo que analisaria tais falas.

Credito, porém, à maturidade das/os companheiras/os a capacidade para entenderem que minhas críticas e observações jamais seriam pessoais. 

Se insisti em permanecer neste grupo foi na expectativa de evitarmos o mal maior: a oposição disputar entre si como se fosse uma convenção partidária para apresentar seus candidatos – à futura eleição UERN 2025 –, haja vista sabermos que a oposição dividida só tira voto dela mesma, e pelo fato de que os candidatos escolhidos no grupo anterior surgiram dentro das regras gestadas no grupo formado por nós, o qual já derivava do grupo originário que vem discutindo a oposição na UERN desde o século passado, como o #EmDefesaDaUERN, depois #UERNemLuta, #UERNemResistência, #SucessãoUERN, #EleiçõesUERN, #ColetivoOposiçãoUERN, #ColetivoRelus, #UERNdemocraciaeLuta e o mais recente, mas, provavelmente, não o último, #UmaUERNdiferente, dos quais, sucessivamente, o núcleo formador foi se excluindo e criando os subsequentes subgrupos e sempre convidando mais gente que “convida mais gente”, tal como um grupo de playboys que promove uma festa [da oposição] e, depois que os convivas apresentam novos convidados, o núcleo sai para fazer sua própria festa reservada em outro lugar deixando-os na festa vazia e convidando novos a participarem do novo encontro como se fosse uma nova festa por estarem em outro local. Por que tanto exclusivismo? Por que tanta discriminação? Queremos só a festa privada ou conquistar a praça pública?

Parece, no entanto, que da última vez esse núcleo se ressentiu porque os convivas, sedentos pela festa [da oposição], trouxeram novos convidados e todos resolveram assumi-la e “convidar mais gente”, cuja sede pela conquista da praça pública tem feito a festa continuar rolando. Por que temos que atrapalhar a festa alheia se nós já aprendemos que duas festas da mesma comunidade não atraem ninguém da praça a ser conquistada, tampouco retira dela algum conviva que não seja expulso; apenas divide a comunidade e mantém a praça em festa ocupada pelos mesmos donos do pedaço? Ao contrário, as duas festas na comunidade dão segurança e tranquilidade à festa na praça.

Se o outro grupo é filho gerado por nós, por que não aprendermos com a experiência, reconhecendo os nossos erros na sua criação e acolhendo-os como bons pais que devemos ser, em vez de renegá-los? Afinal, como pai e educador, aprendi que o comportamento das/os filhas/os é, a rigor, o boletim dos pais.

Graças a alguns comentários ainda em defesa da união dessa oposição ou unicidade de chapa, mesmo que votando em branco ou nulo, para evitarmos a responsabilidade sobre a repetição da derrota, ainda tenho a esperança de que esta mãe não se condene, dialeticamente, ao condenar o próprio filho que ela gerou!

Sem mais, para não alongar este textículo, agradeço a todas as pessoas pela participação me confiada, em nome de Neto Vale, que me convidou e me inseriu, e peço desculpas a todas por eu não ter me despedido antes. Até breve, pois isto não deve alterar nossa amizade!

E a luta continua!

Mossoró/RN, 09/12/2020.

(Prof. William Coelho-DFI/FAFIC)

domingo, 9 de julho de 2017

Sorria e Aprenda, que lhe há de ser BOM o DIA!



Diante de tanta notícia ruim, diariamente, cujo resultado é, geralmente, um adoecimento do humor e da percepção do real, cujo sintoma é o descrédito na Política e até na humanidade, decidi precaver-me disto acessando antes algo que me fizesse rir e compartilhando-o nos vários grupos e entre amigos numa lista de Bom Dia no meu whatsapp. No entanto, um amigo filósofo me questionou: 

De onde vem esse otimismo, que não condiz com o status quo do Brasil atual? 
Talvez venha da minha compreensão de que preciso usar minha força interior (sorrir e aprender) para me vacinar diariamente contra as más forças exteriores e não me entregar ao mau humor ou pessimismo que elas proporcionam.
O sorriso vacina, tal como a piada faz pensar, e o aprendizado torna bom o dia.

Esse otimismo não incorreria num solipsismo inócuo à solução dos problemas objetivos do mundo real? 

Ora, se a questão se reduzir a deixar para os outros encararem a solução dos problemas do mundo intersubjetivo, de fato, isto não pode ser salutar à sociedade.
Mas a questão pode ser: COMO encarar os problemas do mundo intersubjetivo?
E a proposta é: vacinando-se com o sorriso antes de enfrentar as más notícias cotidianas. Pois, a depender delas, certamente, não há como se ter um bom dia.
Para isto, então, é preciso que se aprenda todo dia, a começar com a perspectiva do humor sobre a realidade. E, necessariamente, também com as tristes notícias cotidianas, para se superar a cada dia.
Assim, a solução não é deixada para os outros. Ela ainda está sendo buscada no aprendizado de cada dia com, para, e apesar dos outros.

Se isso tem sentido, então o que é "ter sentido"? Questionou-me uma amiga.

A rigor, a pergunta pelo "sentido" é, para mim, a pergunta verdadeiramente filosófica. Penso que "ter sentido", "fazer sentido" ou "dar sentido" é, em primeira instância, atribuir valor de verdade a um discurso que conforma, que justifica ou se ajusta à prática que preferimos adotar. Em última instância, consiste numa perspectiva pela qual se fundamenta uma prática sem nos arriscarmos a perder o sentido da vida, sem o qual a renegamos ou nos entregamos à barbárie ou à loucura, o que seria o mesmo.

E desde quando o discurso que conforta o subjetivo eu, deixando a solução dos problemas do mundo intersubjetivo para os outros encararem, é salutar à sociedade e aos homens outros? Redarguiu-me o filósofo.
Vale pensar que o discurso que conforta o sujeito é salutar à sociedade desde quando ele se realiza numa ação universalizável. Isto é, desde quando ele não mata o sujeito nem o isola da sociedade.
Atribuir valor de verdade ao sorriso e ao aprendizado cotidianos como condição para tornar bom o dia gera uma ideia universalizável que se realiza na condição de rir e pensar e fazer o outro rir e pensar a partir do risível, na busca de solução com e para os outros, apesar do "status quo do Brasil atual..." Afinal, que sentido tem tentar mudar os outros se não consigo mudar a mim mesmo?

E o que é o sentido da vida? Insistiu nossa amiga.


Teoricamente, seguindo o mesmo raciocínio, eu diria que "o sentido da vida" é o valor de verdade que atribuímos ao nosso modo de viver.                  
A consequência disso é um problema prático, que se dá quando não conseguimos mais com a nossa prática corroborar o valor de verdade atribuído ao discurso que a sustenta. Então, precisamos mudar de prática para dar consistência ao discurso ou mudar o discurso para sustentar a prática. E se não conseguimos isto, qual a consequência?
Parece que nisto consiste a verdade da expressão: a verdade doi. Doi quando a razão reconhece a necessidade lógica de mudar a prática de vida, porque esta já não se sustenta no discurso. 

Quero dizer: considera-se como verdadeiro aquilo que corresponde ao seu modo de viver, sem admitir que tal "verdade" diz respeito apenas a uma parte do discurso que se pretende universal; exatamente aquela parte que interessa para corroborar o modo de vida escolhido, de maneira que a generalização do discurso feita a partir da tal perspectiva não pode ser universalizada, tampouco o modo de vida correspondente.
Por isso, vale pensar para aprender a cada dia. Mas também vale sorrir para não adoecer ...

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Gratidão a Platão

Este testemunho não é de tristeza. É de gratidão.
2016 foi um ano de perda para muita gente. Principalmente para o Povo brasileiro.
Mas também foi um ano de luta intensa e ostensiva. Por isto há gratidão. A luta deve continuar.
Para não testemunhar tristeza não enunciarei as perdas. Não quero dor. Quero a lição.
Que a dor da perda fique no passado! Mais futuro tem a lição no presente.
Para tanto registro dois presentes de aniversário; aliás, 3 que se relacionam:
Nitxe (grafado abrasileirado para não ferir os discípulos do filósofo), que ganhei da minha irmã Nalva, desde julho, para o meu aniversário em dezembro, cujo intento era fazer companhia à bem aventurada Luna, netinha que ganhei em janeiro de 2015.
Pretendia-se também que Nitxe fizesse companhia a Platão, presente que ganhei do meu irmão Sales, em 2005. Com 11 anos, Platão já ultrapassara as expectativas de vida de um Labrador. Pareceu-me interessante gratificar-lhe com a companhia que eu não podia lhe dispor.
No entanto, a energia pueril de Nitxe, querendo brincar o tempo todo, parecia a Platão um desrespeito. O velho não se animou com o novo, mas o respeitou.
Luna também não se interessou por Nitxe. Talvez pelo mesmo motivo de Platão: desrespeito - ele a lambuzou toda e a arranhou; além da falta de domínio, claro!
Por conta disso perdi meu presente: devolvi-o. Ele não cumpria o intento do qual ele nem fora avisado. E por falta de respeito ao seu tempo, ele foi rejeitado. Aliás, nenhum dos três sabia da intenção. Por isso, para não mudar os outros com o meu desejo, mudei o meu desejo.
Curiosamente, ao perder Nitxe, devolvendo-o em 28 de novembro, perdi também Platão, que saiu para suas oferendas vespertinas ao redor da igreja Santo Antônio, do Jardim Cidade Universitária, em João Pessoa, e não retornou.
Ele costumava fazer esse passeio diariamente, sozinho. Mas acredito que ele preferia fazê-lo comigo; inclusive com Nitxe. Pois, apesar dos insistentes saltos de Nitxe sobre ele, durante o passeio ele não reclamava. Antes ele também já havia prolongado esse passeio por duas ou três noites, quando encontrava alguma namorada dos outros, que o preferia, por cujo porte atlético lhe permitia furar a fila. Ele retornava arrasado, mas feliz. Porém, desta vez, sua demora não pode ser por causa de um cio: ninguém na idade dele aguentaria um mes de fila em fila. Além do quê, seria avistado pelas ruas ou noticiado em blog ou páginas Amigos dos Animais, no Facebook. Procurou-se por ele nessas páginas e nas ruas por onde ele passeava. Mas, nada. Perdi-o também. Desconfio até que ele apenas fingia não gostar de Nitxe, talvez por ciúme, sem entender a verdadeira finalidade. Por isso ele preferira não retornar, pra não se sentir sozinho novamente.
Então, fica-me o consolo na ideia de que "notícia ruim chega logo". Assim, se nada nos chegou é porque nada de ruim lhe aconteceu.
Prefiro pensar que se ele não retornou até agora é porque está em boa companhia. Quem o pegou deve ter percebido que ele é um idoso e presumido que estaria abandonado. Quem acolhe um idoso supostamente abandonado, certamente o faz para lhe dar o melhor de si em seus últimos dias. Então, sou-lhe grato por isto!
Poupou-me, inclusive, da dor de assistir à sua morte, presumivelmente em breve. Não vi a sua partida, tampouco a sua chegada. Então valho-me da alegria do grandioso presente vivo, vívido, vivido.
Agradeço a Sales pelos 11 anos de boa companhia, tal como seria a dele próprio.
Agradeço a Nalva e a Ivanaldo por me fazerem sentir-me amado através de tão valioso presente, a quem peço desculpas por não ter sido digno dele.
E agradeço a quem acolheu o meu Platão! Que ele permita a tal pessoa realizar o mais que humano em nós, tal como o fez comigo.
Beijos de gratidão!

segunda-feira, 11 de julho de 2016

A JUAN BONACCINI: POR UMA ATITUDE DE JUSTIÇA INTELECTUAL

Permitam-me apresentar-lhes um episódio particular que ilustra o caráter do intelectual acadêmico que conheci na pessoa do argentino Juan Bonaccini.

Para minha sorte, em 2006, na seleção do Doutorado em Filosofia (UFPB-UFPE-UFRN), Juan Bonaccini estava entre os nove examinadores. O canadense André Leclerc (UFPB) presidia a Banca. Após alguns comentários sobre a minha prova escrita e minha proficiência em Inglês, Leclerc perguntou-me quem seria o meu Orientador, para então discutirmos sobre o meu projeto de pesquisa acerca da Linguagem das Paixões em Aristóteles.
Eu lhe respondi que tinha uma carta de aceite do Prof. Gabriel Trindade, platonista e tradutor português da Universidade de Lisboa, recém-chegado da UnB para a UFPB. Ao que, prontamente, aquele em quem eu esperava apoiar-me negou-me perante os julgadores, alegando não ter aceitado orientar-me sobre tal projeto.
Enquanto ele falava eu busquei a carta-resposta na minha pasta de documentação. No entanto, eu não queria desviar para o âmbito particular da carta a discussão acadêmica do projeto. Contudo, eu também não queria esquecer de a ler ao término da discussão filosófica.
Para minha grata surpresa, quando o renomado professor concluiu sua intervenção, o argentino Juan Bonaccini pegou cópia da carta, dentre os seus documentos, e disse: "Professor, desculpe, mas não é bem isto o que diz a sua carta!". E leu-a para todos ouvirem. Isto foi, para mim, uma atitude de justiça intelectual jamais presenciada.
Espero que o meu amigo Jorge Soares se lembre do conteúdo da carta ou do seu comentário a respeito. Pois foi ele a primeira pessoa com quem a compartilhei. E lembro-me que ao lê-la, Jorge me surpreendeu com a sua generosidade, dizendo: "Esse cara quer aprender Aristóteles com você". Entenda-se: ... a ler como você. Isto porque a carta-resposta dizia algo como: ...este não é o modo como leio Aristóteles, mas terei imenso interesse em orientá-lo.
Felizmente, eu agradeci a Juan pela sua atitude honrosa e surpreendentemente pedagógica, quando nos encontramos, creio que no Simpósio Internacional de Metafísica, em Natal, ou numa Semana de Filosofia, em Caicó. Pois essa atitude ficou-me como a boa e feliz lembrança que tenho dele como exemplo de filósofo acadêmico capaz de enfrentar os seus pares, em defesa de um mero candidato com quem ainda não tinha amizade, para evitar uma injustiça intelectual.
Então, que o exemplo sirva de lição a todos nós: pensem a Ética e ajam eticamente! Pois, infelizmente, o filósofo argentino Juan Bonaccini, Professor do Departamento de Filosofia da UPFE, faleceu em Recife neste domingo 10 de Julho, vítima de câncer. 
Resta-nos o consolo na crença de que a sua dor cessou.
Amem e amém!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

A GRAÇA DO TEMPO

Parafraseando o meu amigo Antônio Jorge,
Tic-tac tic-tac 
o homem marca o tempo
Tic-tac tic-tac 
o tempo marca o homem
Tica e taca no homem
E a mulher marca o tempo 
Que nos consome

Assim tornou-se adulta a criança minha 
E marcou o seu tempo em sua beleza
Da princesa filha à filha princesinha

Assim principia a princesa sua vida a duas
Sai da infância deixando-nos sua mais bela prenda

Prendendo-nos a aprender com quem a substitua

E eis que nos enche de graça
Com o melhor que há no presente:
A vida que por nós só passa Quando o passado já não é ausente
E o futuro jaz projetado
No ser que encanta a gente
No verbo que o tempo faz!

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

DA SAUDADE À ESPERANÇA

(PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DO AMOR)
Ao lembrar o tempo da saudade das minhas filhas crescendo, relembrei o banquinho que projetei no jardim, como lugar de namoro que elas nem perceberam e que meu pai estranhou porque, à época, a minha princesa só tinha dois aninhos. Então, antecipando-me à saudade do que eu ainda não vivera, pensei na que eu reviveria quando minhas filhas assumissem suas vidas e eu desejasse netos. Mas não era saudade. Era esperança. E, enfim, ela chegou: esperança misturada à saudade renovando o amor.
Saudade das filhas crianças revivida na neta que realiza a esperança. 
Esperança de corrigir com as filhas na educação da neta as falhas da educação delas. 
Mas, como? Já nem tenho mais tal direito. Embora ainda tenha o dever de guiar minha filha na criação da minha neta. O dever, contudo, não é uma obrigação, pois não é um imperativo legal nem físico. É apenas uma responsabilidade derivada da consciência de que filha e neta carecem de cuidados. O direito, porém, é uma conquista ou uma concessão, tal como o amor é conquistado ou concedido. 
Costuma-se perguntar se o amor pelos netos é duplicado. Respondo que não. Pois não sei calcular o amor. Apenas sinto-o renovado: o amor à filha se renova com a neta, conforme a convivência. E não o concebo sem isto: participação. Nele há concessão e conquista.
O amor aspira cuidado: carece-lhe e almeja-o para se concretizar. O cuidado inspira o amor: concretiza-o e o renova. Não concebo o amor sem cuidado. Mas somente este pode ser medido, uma vez que é concreto, como atividade pela qual aquele se manifesta. Ele, portanto, pode ser duplo, ou triplo ou calculado no tempo, no espaço, num indivíduo, sob determinadas circuntâncias. Isso, talvez, seja o que confunde as pessoas, induzindo-as a falar que "amor a neto é dobrado".
Não. Dobrado é o cuidado, porque há mais a participar com a filha e também com a neta; há mais a tornar-se parte delas como amadas e delas em mim como amante. O amor, no entanto, é apenas renovado, ou seja, revitalizado pela graça de ser reconhecido e aceito: valorizado, pela conquista e pela concessão. 
Que amor resiste ao descuido? Se não concedido, como ser conquistado? Não é o tempo que mata ou alimenta o amor: mas o descuido ou o cuidado. Se o ser amado não cuida do amor recebido, este perecerá: deixando só saudade de um tempo perdido. Se o amante descuida do ser amado, este não o reconhecerá, porque o critério do amor é o cuidado. E qual o critério do cuidado? Como saber que há descuido ou excessivo zelo pelo outro, o que desvirtua ou perverte o amor? Talvez seja a concessão sem conquista, tal como o direito não conquistado desvirtua ou perverte a liberdade, assim como os privilégios herdados desvirtuam as pessoas e, quando perdidos, perverte-as.
Eis que surge um dilema lógico entre conquista e concessão; entre amor e cuidado. E desconfio que se há dilema é porque a relação não é lógica, mas dialética, cuja superação exige um terceiro elemento. 
Como superar a dialética entre o amor e o cuidado, que se completam como ato e potência, mas não são a mesma coisa? 
O que é o cuidado se não a realização do amor? O que é o amor se não o desejo de cuidar do outro? Como medir o cuidado para que ele não desvirtue ou perverta o amor? Se o cuidado é o critério do amor, qual o critério do cuidado se não o respeito? Como é possível conquistar o amor do outro sem o respeitar? Por que não se valoriza o amor recebido ou doado em demasia, se não devido à falta de respeito para com o outro ou para consigo mesmo? 
Mas, o que é o respeito se não o reconhecimento do valor do outro? E em que consiste o valor do Outro se não no fato de que ele não é um objeto de posse, mas um sujeito de desejos e de liberdade, embora limitada, capaz de decidir conquistar direitos e doar-se em dever, se conquistado? E como conquistá-lo se não pelo cuidado e pelo respeito, pelos quais se reconhecerá a dimensão do amor?  
Eis o aprendizado que espero vivenciar com minha neta, para que o amor se renove nela, pela saudade do que vivemos - eu com meus pais e, depois, com minhas filhas e com ela -, e pela esperança do que elas hão de viver se renovando em gerações.

terça-feira, 14 de abril de 2015

E POR FALAR EM SAUDADE

Curiosamente, a percepção do tamanho do tempo, assim como do espaço, depende sempre do tamanho da própria percepção. Seria isso o que Kant quis nos dizer com seus conceitos de tempo e espaço como formas mentais a priori? Basta lembrar como parecia grande o quintal da casa em que moramos na infância; as praças, as ruas etc. Como parecia distante terminar um ano de estudos, dez anos escolares; depois mais quatro de universidade... e ter filhos? E atingir a idade do meu pai? ...E do meu avô, então!... Lembro-me quando preparei o jardim da minha casa com banquinho onde minha filha deveria namorar e meu pai estranhou... claro, porque ela só tinha dois aninhos. 
Hoje eu me surpreendo em ver a rapidez com que minhas filhas cresceram. Elas já sabem namorar e nem perceberam o banquinho. Ou o perceberam muito bem. Minha Princesa JÁ(?) está cursando universidade, e minha Princesinha prestes a ingressar também. Agora eu já temo a brevidade do tempo em que elas assumirão vida própria... e eu ficarei a desejar netinhos como que para superar a saudade do tempo delas.
Ariadn, quando criancinha, parecia ter muito curto o seu tempo da saudade de mim. Enquanto Ahmina registrou em vinte dias o seu tempo, e eu quase não resisti a tanto, o de Ariadn era tão curto que me fazia sofrer pensando na dor que ela sentia quando eu me ausentava por alguns dias.
A lição me veio quando ela ainda nem tinha dois aninhos e eu precisei viajar em vista da seleção do Mestrado. Foi uma semana de sofrimento, ligando pra casa toda noite, pra saber como ela estava.
Ahmina já tivera sua experiência, portanto, não estava nem aí. Mas, Ariadn estava lá, sim: querendo falar comigo ao telefone; sem ter muito o que dizer, mas me dava a impressão de que ela queria pelo menos ouvir minha voz, sentir a minha presença virtual. E o pior é que ela adoeceu. Felizmente, elas estavam em Natal, com os avós, e cheias de paparicos dos tios (ou seria titiricos e vovoricos?). Por isso eu sabia que estavam bem cuidadas. Ademais, eu nada podia fazer, exceto buscar informações, apesar da tensão das minhas provas.
Então, ao fim de uma semana, voltei pra casa, consolado pela missão cumprida, mas preocupado sobre como eu encontraria minha Princesinha. Para minha triste surpresa, já no portão encontrei meu pai saindo no carro, para o hospital do coração, com minha mãe, vítima de um infarto. E no terraço, deitada numa rede estava minha menininha, dormindo. Assim, eu não poderia ter dela a recepção calorosa que eu esperava. Mas, recepcionado por Ahmina, sua mãe, e os meus irmãos, curiosos em saber como fora minha missão, eis que, ao ouvir minha voz, de súbito Ariadn sentou-se na rede, abaixando a lateral com sua mãozinha e dizendo, num misto de dúvida e alegria em meio ao sono: Painho?!!! Ninguém resistiu à cena surpreendente e todos rimos. Eu apenas peguei suas mãozinhas, desprendendo-as das laterais, e beijei-a na testa, entre os olhos, induzindo-os a se fecharem, e fazendo-a deitar-se novamente. 
Lembro que a tia disse: Pronto! Agora ela não dorme mais... só falava nesse pai; chega adoeceu de saudade! Curiosamente, porém, ela voltou a dormir tão rapidamente quanto se levantou. Dormiu a tarde inteira, como a descansar de uma árdua batalha. E ao se acordar, felizmente, ela já parecia curada.
Daí entendi que saudade pode ser cruel para uma mente despreparada. Parece funcionar como a dor da abstinência que sofrem os viciados. Então, eu precisava fazê-la curar-se, desprender-se de mim, pois eu não poderia funcionar como uma droga, cuja ausência fazia sofrer minha garotinha. Ela precisava aprender que minha ausência não era perda; e a se preparar pois não me teria para sempre.
Parece que funcionou. Consegui curá-la de mim. Tanto que hoje já não sei qual o tempo da sua saudade. Eu já não consigo medi-lo, pois nunca resisto passar mais de trinta dias sem elas, ausente de qualquer contato. Preciso ter notícias; ouvir a voz, vê-las via internet; ler seus textos, suas mensagens, seus pensamentos, mesmo que não tenham se endereçados a mim. Por isso, quando Ahmina viajou para Paris eu lhe pedi para criar um blog de viagem, no qual ela postava suas fotos e notícias quase diariamente.
Apesar de não saber mais qual o tempo de saudade delas, uma vez que eu não consigo deixá-las sentir saudade, contento-me em acreditar que elas conseguiram superar esse tempo. Consolo-me na crença de que isto signifique independência emocional! Quanto à minha saudade... ah! No meu tempo eu dou meu jeito!!!

TEMPO DA SAUDADE

De tantas coisas boas que minhas filhas já me ensinaram, uma das mais importantes foi, sem dúvida, sobre o tempo da saudade.
Ahmina tinha uns cinco anos de idade quando viajou sem mim, pela primeira vez. Ela foi com a avó, passar férias em Natal. E eu, ansioso para vê-la experimentando a liberdade, nos seus primeiros passos de garotinha independente que eu tanto cuidei para que ela se tornasse,  tratei logo de orientá-la. Embora certamente eu estivesse louco para ser seu observador supremo: deixando-a ir, sem, contudo, perdê-la de vista. Então eu lhe disse: Filha! Você pode ir pra casa de quem você quiser, dos seus tios ou seus avós, desde que lhe queiram lá e que alguém possa levá-la. Mas quando sentir saudade é só ligar que painho vai buscá-la.
Ocorreu que todo dia eu ligava pra ela, onde ela estivesse. E fazia questão de falar com ela. E, curioso e ansioso, eu lhe perguntava: Filha, está com saudade?
É claro que ela não estava. Na verdade, quem estava com saudade era eu. E ficava tentando transferir para ela o meu desejo, a vontade de que ela sentisse saudade tanto quanto eu estava sentindo. Mas, isto eu não percebia. Eu certamente o fazia inconscientemente. A rigor, eu só percebi depois de uns cinco dias ligando, geralmente à noite, antes de ela dormir. Foi quando eu lhe perguntei: Filha, está com saudade? E ela me respondeu, com  toda a sinceridade de uma criança: Ô, painho, você não deixa...! E que mais eu podia fazer senão sorrir e chorar em gargalhadas, pela lição aprendida?
Foi, então, que eu me dei conta de que a saudade carece de tempo. E que esse tempo é diferente em cada pessoa. Que é preciso que deixemos o ser amado livre de nós se quisermos que ele também sinta saudade. É preciso respeitar o tempo do outro. Não há necessidade de que o tempo dele seja igual ao nosso. Sinceramente, eu me maravilhei com tamanha sabedoria, vinda de uma criança.
Desde então, tratei de não mais incomodá-la com a minha virtual presença, com a minha voz, tampouco com a minha pergunta constrangedora. Contudo, não deixei de ligar, pra satisfazer a minha saudade. No entanto, eu apenas procurava saber notícias dela: onde estava, como, com quem, e pedia apenas que lhe dissessem que lhe mandei um beijo.
Até que após vinte dias contados, ela pediu pra avó ligar pra mim e me disse: Painho, estou com saudade! Venha me buscar! Esta foi uma das frases mais maravilhosas que já ouvi. Simplesmente, porque sei que ela veio no tempo próprio de quem a pronunciou; sem vício, sem obrigação. Não era necessidade. Nem sedução. Era apenas desejo e decisão de satisfazê-lo. E o melhor: ela nem me perguntou se eu também estava com saudade. Afinal, há pergunta mais constrangedora do que aquela que lhe obriga a concordar com o que ela já está induzindo? ...Estou com saudade, e você, está com saudade de mim? ...Eu te amo, e você, também me ama? Para piorar, ainda há quem acrescente: ...Quanto você me ama? É muito ou pouco?
Em setembro passado, quando ela viajou para estudar três meses em Paris, ao nos despedirmos no aeroporto, relembrando a cena eu lhe disse: Filha, quando sentir saudade ligue que painho vai buscá-la. Ao que ela me respondeu, mimosamente: ...o senhor não vaaaai!...

domingo, 2 de novembro de 2014

Cinzas Eleitorais

A última semana de outubro esteve para a eleição 2014 tal qual a quarta-feira de cinzas está para o carnaval: uma ressaca ou uma benzedura. Ressaca eleitoral de quem se recusa a ver a realidade. Ou uma benzedura de oferendas de quem temia a recaída de antigos carnavais. Parece que só na semana seguinte é que tudo deve se normalizar, como quem se restabelece de uma doença ou acorda de um pesadelo: com o alívio de ouvir outras músicas que não sejam do carnaval e discutir outros temas que não sejam da eleição.
Parece haver um muro mental ou temporal a ser transposto por todos que vivenciaram esse processo. O lamento dos perdedores teimou em perdurar por toda a semana, embora a comemoração dos vencedores não pareça tão perdurável quão pouco meritória.
No Rio Grande do Norte, por exemplo, a melhor expressão disso foi a postagem com a foto da capa do primeiro disco de Chico  Buarque, legendada: Chico sorrindo (Henrique perdeu), alegria; Chico sério (Robinson ganhou), desânimo. 
De certo modo isso também pode valer para a eleição na Paraíba e em tantos outros estados. Na Paraíba, pela alegria devida à derrota do tradicional candidato do PSDB, Cássio Cunha Lima, que nunca havia perdido eleição e representava bem a disputa em âmbito nacional, uma vez que ele já esteve no governo estadual por 7 anos, cassado no final do segundo mandato, e que visivelmente só cuidou do seu grupo político e afilhados da elite paraibana. Em debate, ele sequer conseguia explicar os investimentos do seu governo para a Educação, a Saúde e a Segurança Pública, que ele tanto criticava no governo atual, cujos índices superavam os do dele.
Não há como negar a glória e graça em derrotar as oligarquias tradicionais Cunha Lima (PB), com dezena de familiares no pleito, e Alves e Maia (RN) que se alternavam no poder. Aliás, vale registrar a estupidez do senador José Agripino Maia (Demo/RN), revoltado com a derrota do presidenciável Aécio Neves (PSDB) pelos nordestinos e vitorioso no Sul e Sudeste brasileiros, onde estaria, segundo ele, o Brasil moderno vencido pelo Brasil atrasado, para cujo atraso o próprio senador (1987-91; 1995-2018?) tem contribuído desde quando foi prefeito biônico de Natal (1979-82) e governador do RN (1983-6; 91-4). Que isso seja lembrado até a próxima eleição, para a devida resposta nas urnas.
Diante das críticas ao governo Dilma a postagem também pode se estender à eleição no âmbito nacional. Apesar do Chico Buarque dizer na campanha votar "na Dilma, pela Dilma", confesso que, a meu ver, ela não merecia ser reeleita. Pois, embora ela tenha ampliado as políticas sociais, pelo que fez a ONU tirar o Brasil do mapa da fome, ela não cumpriu o básico do seu perfil de administradora, que era fazer concluir as obras fundamentais iniciadas no governo Lula, cujo atraso demanda gastos e suspeita de corrupção.
Eu nem valido o argumento dos adversários quanto ao baixo crescimento econômico, pois o considero economicista. Ou seja, só veem números que interessam ao capital financeiro e desprezam o capital humano. Eles só veem acúmulo de riqueza e não a distribuição dela. Basta observar a contradição pragmática na revolta contra as conquistas sociais: em geral, esses críticos querem e podem sair do Brasil para viver no primeiro mundo, onde supostamente não há miséria, pois há educação e trabalho. Contraditoriamente, porém, não querem o Brasil dando essas condições aos brasileiros.
Qual o pressuposto do argumento economicista? É a crença liberal expressa na frase do presidente Costa e Silva: tornar o rico mais rico para assim ajudar os pobres. Historicamente, todavia, sabe-se que isso nunca funcionou: observe-se o governo neoliberal do Fernando Henrique Cardoso (PSDB/1995-2002), sociólogo, econometrista, cujos escritos sobre a realidade do Brasil ele próprio mandou esquecer (Sebastião C. Velasco e Cruz; 1999) tão logo assumiu o governo. Reveja-se o período do dito milagre brasileiro (1974) quando a economia cresceu, mas a pobreza se multiplicou.
Por isso a alegria deveu-se mais à derrota impingida ao risco de recaída dos velhos carnavais eleitorais do que propriamente à vitória do que ainda não se cumpriu na grandiosidade das obras de integração do rio São Francisco às bacias hidrográficas nordestinas para mais de 390 municípios dos estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Maranhão e Piauí; da ferrovia Norte-Sul que só chegaria até Goias e agora vai se estender por 4.000 km do Norte do Maranhão ao Rio Grande do Sul, passando pelo Pará, Tocantins, Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Santa Catarina, como uma coluna vertebral para o escoamento da economia, em sua integração com os chamados portos secos, uma vez que a obra iniciada há 27 anos só tinha construídos 205 km nos governos Sarney e FHC e 719 km no governo Lula.
Por essas e outras é que a alegria deveu-se mais à derrota do retrocesso do que à vitória do sucesso. Contudo, espero ainda o alívio de ouvir uma nova música que não lembre o carnaval da eleição, mas que nos mantenha atentos à luta para que as melhorias para o Povo brasileiro não sejam apenas promessas de um sonho que pode se tornar um pesadelo nas próximas eleições.

domingo, 20 de maio de 2012

Do Mérito da Lição

Como disse o filósofo medieval, Agostinho de Hipona, nós falamos para ensinar. E mesmo numa pergunta estamos ensinando ao outro o que não sabemos. Eis a lição agostiniana da linguagem. 
Macaco Pensador contemplando a lua
Disso penso que se nada consigo ensinar com minhas palavras, então prefiro calar-me, seguindo o preceito wittgensteiniano. Afinal, por que desperdiçar minha energia se eu posso aprender observando, em vez de ensinar falando? O pressuposto ainda é a crença de que o outro possa aprender com o meu silêncio, sem desgaste, desde que o silêncio se torne um desafio para o outro, como princípio aristotélico da educação. Pois, que prazer estúpido é falar do que sei a quem nem entende o que digo? Talvez nem ouça o que falo...
Mas, o que ele aprenderia, para além das palavras? Só saberei pelo seu discurso ou pela sua mudança de comportamento. E que mérito teria o meu silêncio na sua aprendizagem, se o esforço foi dele em superar o desafio? Dialeticamente, o mérito é proporcional à capacidade dele em apreender a relação entre minhas palavras e meu silêncio. E parece-me que só sua própria sabedoria seria capaz de valorizar.
Isso me lembra quando fui a um caixa-rápido dentro de um supermercado e estranhei a disposição da fila. A máquina fica ao lado do banheiro da loja. E as duas pessoas da fila seguiam a tendência, que é posicionar-se atrás de quem está sendo atendido. Isso me parece um erro, em serviço bancário, pois provoca a desconfiança sobre a curiosidade de quem está atrás do usuário em atendimento. 
Além disso, observei que com o crescimento da fila os próximos clientes entrariam no banheiro ou ficariam à sua porta, constrangendo os que necessitassem passar por ela. Então, apenas conferi com o último da fila se ele estava para utilizar aquele caixa e me posicionei do lado oposto, de frente para eles e ao lado da máquina, de modo que não tinha acesso à tela nem ao teclado. Mas avisei que eu estava na fila, para testemunharem que o próximo cliente a chegar deveria prosseguir a fila a partir de mim, na direção contrária ao banheiro.
Fila
Interessante é que logo chegou um rapaz e, como é comum, dirigiu-se para trás dos outros. Mas o seu antecedente lhe fez um gesto apontando pra mim, sem falar. Ele, então, perguntou-me, curioso: você está na fila? Eu lhe respondi que sim e justifiquei: ...é que se ficarmos aí, os próximos terão que entrar no banheiro ou constranger quem for entrar. Ao que ele concordou e me seguiu.
Mais interessante é que ele não se conteve e, já configurando a nova fila, anunciou: "Gostei! Acho que ninguém tinha pensado nisso ainda." E eu acrescentei: ...nessa posição não incomodamos ninguém, pois nem há perigo de curiarmos a tela nem o teclado enquanto outro está sendo atendido.
E ele reforçou entusiasmado: "Valeu! Você pensa por si e pelos outros." Ao que lhe respondi: alguém tem que fazer isso. E completei: Valeu! Você pensa e sabe reconhecer o que é o melhor para si e para os outros.

sábado, 5 de maio de 2012

Nova Lição

Há alguns dias eu estava passeando de bicicleta e fui calibrar-lhe os pneus na borracharia de um posto de combustível. Com um "bom dia!" habitual cumprimentei o borracheiro e os clientes. Perguntei, então, se eu poderia usar aquele equipamento, mas o borracheiro não me respondeu. Apenas pegou-o para calibrar os pneus de um carro de uma motorista. Ao terminar, ele me entregou a mangueira do calibrador e foi terminar outro serviço em outro carro.
Enquanto eu fazia o meu serviço eu o ouvia dizendo para outros dois clientes: "há duas coisas que as pessoas falam e que não servem pra nada: 'deus lhe pague!' e 'obrigado!' O que é isso?". Vi no questionamento oportunidade para uma boa reflexão filosófica. Mas, pela situação, presumi que o falante estava a reclamar da motorista, que nem saiu do carro e talvez só lhe tenha dito "obrigada" ou "deus lhe pague". Ele ainda descartou o "deus lhe pague", alegando que só receberia em outra vida na qual, aparentemente, ele não acreditava; então, em que isso lhe agraciaria?!
O cliente a quem ele ora atendia apenas escutava. Mas alguém que ora prestava serviço ao posto, retrucou: "É uma questão de educação dizer 'obrigado'. Mas se você não tem educação... o que se pode fazer?!". 
Eu já pensava em lhe perguntar se ele quereria saber realmente o que significa "obrigado". Mas quando ele respondeu "Educação?! Educação não paga serviço, não"; eu logo percebi que ele nem poderia querer saber, pois, pelo seu discurso, a sua sabedoria se limitava a coisas concretas. Ora, se nem por medo, próprio do senso comum, ele apreendera a ideia de um pagamento divino, como apreenderia a ideia de um "obrigado" ou de "educação"?
Daí eu o compreendi como exemplar de um aspecto mítico da racionalidade, em cuja linguagem as palavras só tem sentido se elas não apenas se referem, mas denotam, de fato, algo concreto como, por exemplo, "dinheiro". Por isso, para ele, "educação" não faz o menor sentido. Tanto é que ele acrescentou, dirigindo-se ao dono do posto: "Então, não paga a ele, não; diz apenas 'obrigado' e pronto".
Eu já havia terminado o meu serviço e estava, então, montado na bicicleta pensando sobre como eu poderia lhe dizer que seu raciocínio correspondia à mentalidade primitiva, pela qual se promoviam sacrifícios de vida animal ou humana, para render graças aos deuses, em agradecimento por alguma graça alcançada, como uma boa colheita ou como a vitória numa guerra, por exemplo. 
Mas, valeria a pena dizer-lhe que "obrigado(a)" significa agradecido(a)? E que estar agradecido significa dar graça ou agraciar? E que dar graça ou agraciar é, de fato, fazer algo em reconhecimento ao serviço prestado, ou seja, à graça recebida? Afinal, nesses termos, eu tinha que concordar com o raciocínio dele em esperar não apenas um "obrigado", mas, sim, um dinheiro ou algo em troca do seu serviço. E, daí, como lhe explicar que há centenas de anos a racionalidade mudou, juntamente com as relações sociais cuja modernidade apenas endeusou a concretude do dinheiro?
Sob a imediatidade da questão e do meu passeio, logo decidi apenas sorrir-lhes e silenciar-me, saindo sem lhe agradecer pela lição nem me desculpar pelo uso do ar comprimido, evitando assim que ele me cobrasse duplamente.

domingo, 9 de outubro de 2011

Educação Mítica e Racionalidade

Ponta do Seixas, João Pessoa-PB [Google imagens]
Certa vez, num banho de mar na Praia do Seixas, em João Pessoa, observando aquela imensidão de água, Ariadn Raílla (minha filósofa aos 5 anos) aproveitou para me perguntar sobre uma história que ouvira acerca da origem da grande Lagoa do Bonfim, que conhecera na Grande Natal. Ela queria saber o que havia de verdadeiro em torno de uma suposta cobra que teria engolido uma menina, ou de uma criança que teria se transformado em cobra e que viveria até hoje na lagoa. 
Curioso pelo que possivelmente ela quereria saber, observei-lhe que, certamente, há pelo menos duas versões dessa história: uma que diz que a criança teimou com a mãe e foi engolida pela cobra; e outra segundo a qual uma menina teria se transformado numa cobra. 
E comecei: – Contam os antigos que quando ainda não existia a Lagoa do Bonfim, mas apenas uma pequena cacimba lá naquele lugar...
Então a filósofa perguntou: – O que é uma “cacimba”?
– Ora... Você sabe o que é uma poça de água, como aquelas pequeninas lagoas que ficam nas ruas de barro após uma chuva?
– Sei. – respondeu ela.
Pois bem – retomei –, uma cacimba é uma lagoinha, como uma poça d’água, só que com água jorrando de dentro da terra. Entendeu?
– Claro!
– ...Pois dizem que uma menina queria ir brincar na cacimba, mas a sua mãe não permitia. A mãe falou que era perigoso, uma vez que lá morava uma cobra grande pronta pra pegar criança teimosa. Apesar disto, a menina aproveitou-se de um descuido da sua mãe e foi às escondidas. Em lá chegando, pôs-se a brincar prazerosamente, sozinha, tomando banho e batendo na água com o fundo externo da sua vasilha. Uma versão conta que ela estava sentada numa pedra à beira da cacimba, enquanto brincava, e não percebeu que o nível da água subia inundando tudo ao redor e que, por conta da sua desobediência para com a sua mãe, a menina transformou-se numa cobra grande que ainda hoje vive na lagoa. 
Outra versão conta que a pedra em que a criança estava sentada, ao ser encoberta pela água, transformou-se numa cobra pela qual a menina foi imediatamente devorada enquanto todo aquele baixio era alagado transformando-se na lagoa que é hoje. 
Ariadn Raílla: Lagoa do Bonfim, São José de Mipibu-RN
Outros ainda crêem que, na verdade, aquela pedra era uma cobra adormecida, que despertou com o barulho da vasilha e com a água banhando-a, pelo que, raivosa e faminta, engoliu a menina. Em suma, o que há de comum entre essas versões é que a teimosia da criança marca a origem daquela lagoa onde até hoje, conforme acreditam, vive a tal cobra, como o bom fim do castigo a quem desobedece à mãe naquela região.
A pensadora, então, na sua sapiência pueril, perguntou: – Mas isso não é verdade não, é? É apenas uma história para criança não teimar com a mãe, não é?
E eu, percebendo assim o que ela realmente queria saber, acrescentei: – Realmente não é verdade. É apenas um mito, isto é, um modo simples de educar um povo: contando-lhe histórias bonitas que servem para explicar a origem das coisas importantes para a região, como aquela lagoa; e provocando nas crianças o medo de desobedecer à mãe.
Ah! – ilustrou-me o seu raciocínio – Quer dizer que não é verdade, mas se a criança teimar pode acontecer com ela, não é?!
Isto me fez entender como o discurso mítico faz parte da racionalidade infantil. Pareceu-me claro o quanto a criança é capaz de compreender o que é dito racionalmente, mas ao mesmo tempo se apraz com certa leitura de mundo que fala de medo e desejo e de suas consequências na formação do nosso comportamento. Embora reconhecendo tais histórias como “mentiras”, sua racionalidade reconhece também o valor que elas tem na própria educação, desde que a razoabilidade do mito seja explicitada.
Por isso eu concordei com ela, dizendo: – ...De certo modo sim. Não que ela se transforme em cobra ou que seja engolida por uma, mas que ela pode, de fato, ser ferida por algum animal ou planta e, apavorada, não resistir; assim como, uma vez assustada, a criança pode se descuidar, acidentando-se sem condição de sobreviver sozinha. De qualquer maneira, há sempre perigo para uma criança brincar isolada onde a água é mais volumosa. 
No entanto, Ariadn também sabe que nem sempre isso pode ser dito a uma criança de modo tão explícito. Pois, sem a experiência da dor, o desejo inibe qualquer noção de perigo. E o que desperta a atenção é o medo do desconhecido. 

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

BENDITO SEJA


Vocábulo muito dito, desgastado sentido. Isso bem poderia ser um provérbio a se observar.
Já perceberam como as pessoas comuns, ou cristão vulgar, dão graças a Deus por tudo? E como elas abençoam ou pedem a bênção à autoridade parental ou semelhante?
Antigamente se dizia: "sua bênção, meu pai!" ou "sua bênção, minha mãe! ...meu avô! ...vó! ...tio! ...tia! ...padrinho! ou ...madrinha!". Pelo menos deve ter sido assim que fora ensinado pela doutrina católica, rogando uma graça a quem, porventura, pode interceder divinamente: "sua bênção, padre!". Mas qual a autoridade do intercessor? Quem concede tal autoridade a um padre pedófilo, por exemplo? Ou a uma mãe má ou um mau pai, tio ou avô, estuprador, assassino, bandido? Que poder de acesso ao divino tem alguém desse tipo, mais do que uma criança inocente?
Sabe-se, como diz o grande helenista Professor Henrique Murachco, que a preguiça de falar faz a economia das palavras, mudando-as desde benedicto [latim] para Benedito, bendito, Bento, todas significando a mesma coisa: aquele agraciado pelo bem-dizer [benedictione]; daí benzer, resultando geralmente em "bença, pai; bença, mãe!" até se transfigurar em um sonho de consumo dos mais caros do mercado automobilístico: "benz, pai; benz mãe!" (...Mercedes... em latim significa dar graças; mercê: favorecer, beneficiar). Mas, que sentido ainda é guardado nessa prática senão a força da tradição? Certamente por causa disso ela vai se perdendo. Pois, se não há sentido, por que praticá-la?
Do mesmo modo ocorre com o discurso da autoridade de quem abençoa. Minha mãe sempre disse apenas "Deus te abençoe!". Por tanta repetição isto soa como: "Deustabençoe", "Deustambemsois", quiçá "Deunstabefões".
Meu pai, porém, costuma dizer "Deus te faça feliz!". Sempre achei bonito este ato de fala. Talvez porque as palavras escolhidas obriguem o pronunciamento correto, não permitindo destoar. No máximo soaria como "Deus te faz feliz!". Além disso, para mim, parecem realmente expressar um desejo enorme de ver a felicidade dos filhos, sobrinhos e afilhados ou netos devidamente entregues a Deus. 
Felicidade não é dom divino; é compromisso humano
Com a frase escrita, então, o ato se torna mais belo, pois sua inscrição se transforma em espelho, universalizável: inscrito não para si, mas para o Outro, pela leitura deste o ato reflete seu poder a quem o inscreveu. Quer dizer: o efeito é remetido para a coisa onde ele está inscrito, como num carro, por exemplo, ou para quem quer que lhe esteja relacionado: dono, motorista etc... Diferentemente de “Deus é fiel”, “Guiado por Deus” ou “Propriedade de Jesus”: discursos vazios que só falam do medo de quem os inscreve.
Claro que, apesar da beleza daquele discurso, ele resulta em outro problema, pois pressupõe que a felicidade seja um dom divino. Ora, isto seria um absurdo! Afinal, como poderia Deus escolher quem será feliz e quem não?! Que injustiça seria condenar alguém à infelicidade já desde o nascimento?! Por isto, em verdade vos digo: felicidade só pode ser um compromisso humano. E muitos deficientes dão prova disso.
Não sei com quem meu pai aprendeu a benzer deste modo, uma vez que minha avó paterna dizia, geralmente: "Deus te dê juízo!". Seria muito bom se ela fosse kantiana, pois, certamente estaria dizendo "Deus te dê discernimento!". A minha dúvida é se esse tal juízo, para ela, correspondia tão-somente a um aprimoramento da capacidade de julgar, ou seja, à sensatez, ou simplesmente ela queria mesmo era dizer que me achava um sem-juízo, isto é, meio maluco. Realmente não sei. 
Meu avô materno também se pronunciava com singularidade. Ele dizia: "Deus te dê boa fortuna!". Apesar de não ser ele um leitor de Maquiavel, eu acredito que o sentido estava mais para "boa sorte", do que mesmo para acúmulo de riqueza, como seria comum acreditar. Isto porque ele me parecia alguém tão sublime, que a riqueza material certamente lhe aparentava supérflua.
Só sei que, de qualquer modo, o pressuposto de todos esses discursos ou atos de fala é que, materialmente, pede-se para os descendentes aquilo que eles não tem ou o que se acredita ser melhor para eles. O legal é que minha irmã parece resumir tudo isso, dizendo: “Que Deus continue te abençoando ricamente!”... Agora, vai dizer isso para um desgraçado!
Metafisicamente, no entanto, pedir ou dar a bênção, isto é, benzer ou bem-dizer pressupõe valer-se da crença de que a palavra tem força, poder: de súplica, de concessão, de transformação. Tanto é que na sabedoria popular algumas pessoas ainda se recusam a pronunciar determinadas palavras como "câncer", substituindo-a por "CA", nome do exame usado para diagnosticar o tumor; ou mesmo por "a doença maldita" [mal dita], ou simplesmente por "aquela doença".
Outras pessoas jamais ousam pronunciar o nome "diabo", substituindo-o por vários outros como: "o capeta", "o demo", "o tinhoso", "maligno", “maldito”, "coisa-ruim" e até "diacho", como falam meus tios, como se o demônio fosse tão burro que não percebesse a mudança do nome, e assim não pudesse se apresentar ao chamado.
Entretanto, abençoar ou render graças, a rigor, querem dizer a mesma coisa: bem-dizer para ser divinamente agraciado. Mas, por que as pessoas se valem apenas do sentido metafísico se toda mística exige uma atitude? Que sentido terá a linguagem, sem uma ação que a corrobore? Como é possível, afinal, dar graças a Deus por tudo, e nada fazer, de fato, em troca, em real agradecimento? E que significa agradecer, senão reconhecer o feito? Se Deus, realmente, sabe tudo, pois tudo vê, ele vai se contentar com o fervor ou o vazio de palavras, sem que a vida do falante expresse tamanho reconhecimento?
Bem dito seja! Bem feito também!

terça-feira, 31 de maio de 2011

E Por Falar em Saudade

Curiosamente, a percepção do tamanho do tempo, assim como do espaço, depende sempre do tamanho da própria percepção. Seria isso o que Kant quis nos dizer com seus conceitos de tempo e espaço como formas mentais a priori? Basta lembrar como parecia grande o quintal da casa em que moramos na infância; as praças, as ruas etc. Como parecia distante terminar um ano de estudos, dez anos escolares; depois mais quatro de universidade... e ter filhos? E atingir a idade do meu pai? ...E do meu avô, então!... Lembro-me quando preparei o jardim da minha casa com banquinho onde minha filha deveria namorar e meu pai estranhou... claro, porque ela só tinha dois aninhos. 
Hoje eu me surpreendo em ver a rapidez com que minhas filhas cresceram. Elas já sabem namorar e nem perceberam o banquinho. Ou o perceberam muito bem. Minha Princesa JÁ(?) está cursando universidade, e minha Princesinha prestes a ingressar também. Agora eu já temo a brevidade do tempo em que elas assumirão vida própria... e eu ficarei a desejar netinhos como que para superar a saudade do tempo delas.
Ariadn, quando criancinha, parecia ter muito curto o seu tempo da saudade de mim. Enquanto Ahmina registrou em vinte dias o seu tempo, e eu quase não resisti a tanto, o de Ariadn era tão curto que me fazia sofrer pensando na dor que ela sentia quando eu me ausentava por alguns dias.
A lição me veio quando ela ainda nem tinha dois aninhos e eu precisei viajar em vista da seleção do Mestrado. Foi uma semana de sofrimento, ligando pra casa toda noite, pra saber como ela estava.
Ahmina já tivera sua experiência, portanto, não estava nem aí. Mas, Ariadn estava lá, sim: querendo falar comigo ao telefone; sem ter muito o que dizer, mas me dava a impressão de que ela queria pelo menos ouvir minha voz, sentir a minha presença virtual. E o pior é que ela adoeceu. Felizmente, elas estavam em Natal, com os avós, e cheias de paparicos dos tios (ou seria titiricos e vovoricos?). Por isso eu sabia que estavam bem cuidadas. Ademais, eu nada podia fazer, exceto buscar informações, apesar da tensão das minhas provas.
Então, ao fim de uma semana, voltei pra casa, consolado pela missão cumprida, mas preocupado sobre como eu encontraria minha Princesinha. Para minha triste surpresa, já no portão encontrei meu pai saindo no carro, para o hospital do coração, com minha mãe, vítima de um infarto. E no terraço, deitada numa rede estava minha menininha, dormindo. Assim, eu não poderia ter dela a recepção calorosa que eu esperava. Mas, recepcionado por Ahmina, sua mãe, e os meus irmãos, curiosos em saber como fora minha missão, eis que, ao ouvir minha voz, de súbito Ariadn sentou-se na rede, abaixando a lateral com sua mãozinha e dizendo, num misto de dúvida e alegria em meio ao sono: Painho?!!! Ninguém resistiu à cena surpreendente e todos rimos. Eu apenas peguei suas mãozinhas, desprendendo-as das laterais, e beijei-a na testa, entre os olhos, induzindo-os a se fecharem, e fazendo-a deitar-se novamente. 
Lembro que a tia disse: Pronto! Agora ela não dorme mais... só falava nesse pai; chega adoeceu de saudade! Curiosamente, porém, ela voltou a dormir tão rapidamente quanto se levantou. Dormiu a tarde inteira, como a descansar de uma árdua batalha. E ao se acordar, felizmente, ela já parecia curada.
Daí entendi que saudade pode ser cruel para uma mente despreparada. Parece funcionar como a dor da abstinência que sofrem os viciados. Então, eu precisava fazê-la curar-se, desprender-se de mim, pois eu não poderia funcionar como uma droga, cuja ausência fazia sofrer minha garotinha. Ela precisava aprender que minha ausência não era perda; e a se preparar pois não me teria para sempre.
Parece que funcionou. Consegui curá-la de mim. Tanto que hoje já não sei qual o tempo da sua saudade. Eu já não consigo medi-lo, pois nunca resisto passar mais de trinta dias sem elas, ausente de qualquer contato. Preciso ter notícias; ouvir a voz, vê-las via internet; ler seus textos, suas mensagens, seus pensamentos, mesmo que não tenham se endereçados a mim. Por isso, quando Ahmina viajou para Paris eu lhe pedi para criar um blog de viagem, no qual ela postava suas fotos e notícias quase diariamente.
Apesar de não saber mais qual o tempo de saudade delas, uma vez que eu não consigo deixá-las sentir saudade, contento-me em acreditar que elas conseguiram superar esse tempo. Consolo-me na crença de que isto signifique independência emocional! Quanto à minha saudade... ah! No meu tempo eu dou meu jeito!!!

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Do Tempo da Saudade

De tantas coisas boas que minhas filhas já me ensinaram, uma das mais importantes foi, sem dúvida, sobre o tempo da saudade.
Ahmina tinha uns cinco anos de idade quando viajou sem mim, pela primeira vez. Ela foi com a avó, passar férias em Natal. E eu, ansioso para vê-la experimentando a liberdade, nos seus primeiros passos de garotinha independente que eu tanto cuidei para que ela se tornasse,  tratei logo de orientá-la. Embora certamente eu estivesse louco para ser seu observador supremo: deixando-a ir, sem, contudo, perdê-la de vista. Então eu lhe disse: Filha! Você pode ir pra casa de quem você quiser, dos seus tios ou seus avós, desde que lhe queiram lá e que alguém possa levá-la. Mas quando sentir saudade é só ligar que painho vai buscá-la.
Ocorreu que todo dia eu ligava pra ela, onde ela estivesse. E fazia questão de falar com ela. E, curioso e ansioso, eu lhe perguntava: Filha, está com saudade?
É claro que ela não estava. Na verdade, quem estava com saudade era eu. E ficava tentando transferir para ela o meu desejo, a vontade de que ela sentisse saudade tanto quanto eu estava sentindo. Mas, isto eu não percebia. Eu certamente o fazia inconscientemente. A rigor, eu só percebi depois de uns cinco dias ligando, geralmente à noite, antes de ela dormir. Foi quando eu lhe perguntei: Filha, está com saudade? E ela me respondeu, com  toda a sinceridade de uma criança: Ô, painho, você não deixa...! E que mais eu podia fazer senão sorrir e chorar em gargalhadas, pela lição aprendida?
Foi, então, que eu me dei conta de que a saudade carece de tempo. E que esse tempo é diferente em cada pessoa. Que é preciso que deixemos o ser amado livre de nós se quisermos que ele também sinta saudade. É preciso respeitar o tempo do outro. Não há necessidade de que o tempo dele seja igual ao nosso. Sinceramente, eu me maravilhei com tamanha sabedoria, vinda de uma criança.
Desde então, tratei de não mais incomodá-la com a minha virtual presença, com a minha voz, tampouco com a minha pergunta constrangedora. Contudo, não deixei de ligar, pra satisfazer a minha saudade. No entanto, eu apenas procurava saber notícias dela: onde estava, como, com quem, e pedia apenas que lhe dissessem que lhe mandei um beijo.
Até que após vinte dias contados, ela pediu pra avó ligar pra mim e me disse: Painho, estou com saudade! Venha me buscar! Esta foi uma das frases mais maravilhosas que já ouvi. Simplesmente, porque sei que ela veio no tempo próprio de quem a pronunciou; sem vício, sem obrigação. Não era necessidade. Nem sedução. Era apenas desejo e decisão de satisfazê-lo. E o melhor: ela nem me perguntou se eu também estava com saudade. Afinal, há pergunta mais constrangedora do que aquela que lhe obriga a concordar com o que ela já está induzindo? ...Estou com saudade, e você, está com saudade de mim? ...Eu te amo, e você, também me ama? Para piorar, ainda há quem acrescente: ...Quanto você me ama? É muito ou pouco?
Em setembro passado, quando ela viajou para estudar três meses em Paris, ao nos despedirmos no aeroporto, relembrando a cena eu lhe disse: Filha, quando sentir saudade ligue que painho vai buscá-la. Ao que ela me respondeu, mimosamente: ...o senhor não vaaaai!...