quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Ao Mestre, a Sabedoria

Benditas sejam a beleza e a leveza do teu ser!
Tua alma poética
A profundidade dos teus belos versos
Teu senso crítico e cômico
Teu universo e o teu prazer!

Bendita seja a coerência dos teus pensamentos
O equilíbrio dos teus sentimentos
O teu sorrir e o teu fazer sorrir
O teu chorar que não se vê
Nem se deixa sucumbir!


Tuas atitudes benditas sejam!
Tua particular filosofia
Que não se sustém nem advém
Das filosofias vãs de ninguém
Pois sim da sutileza do teu perceber 
Conhecer, transformar, renovar, descobrir
Traduzir e com profundidade repassar
Seduzir, fazer pensar
Parece ser intrínseco
Você sabe fazer bem
Tudo vem da soma de incontáveis dias
Infindos quês e porquês
Que se sucederam e se sucederão

Bendito seja então
Viver sempre
Com tal sensatez
Inquietude em busca da precisão
Como que a vida fosse de sua própria autoria!
Depois filosofar, sonhar, poetar, satirizar
Deixando sua digital
Tudo por vez
Viver sempre
Prioritariamente com alegria
Sei que estes são seus: compromisso e competência em harmonia

Isso é arte
Para que se perpetue pelo menos a ideia
Pra não deixar morrer a busca da plenitude
Nem o palco nem a platéia
O que outrora outros mestres nos diziam


Utilizar-se de uma peculiar humanidade e humildade sem hipocrisia 
São atributos que sobressaem à ciência
Por excelência, mestre
Com pose de aprendiz:
Seja isso, talvez, tua real sapiência

Que o meu céu garanta o teu céu!
A tua terra com incontáveis e maravilhosos dias!
Bendito sejas tu entre todos nós!
E assim reine ao mestre a sabedoria!


Bendito seja o meu presente de aniversário, do meu irmão poeta F. Sales de Oliveira (Natal, 18/12/2012)

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Comentário ao texto de Danuza Leão conforme publicado no blog de Ailton Medeiros

Maria Antonieta, quem diria, mora em Ipanema (blog de Ailton Medeiros)

Segundo Aílton Medeiros, Danuza Leão diz: “Viajar ficou banal e a pergunta é: o que se pode fazer de diferente, original, para deslumbrar os amigos e mostrar que se é um ser raro, com imaginação e criatividade, diferente do resto da humanidade?
Certamente, “imaginação e criatividade” é o que nunca teve quem se incomoda por que outros agora podem desfrutar do que ele(a) podia há tempos; contudo, sem jamais descobrir como fazer algo novo, “diferente, original”. 
Afinal, ela não fazia por si mesma, mas apenas “para deslumbrar os amigos”… ‘amigos’ que não podiam gozar do que ela podia… senão nem se deslumbrariam.
A pergunta é: seu gozo era pelas viagens ou pelo deslumbre de poder sobre os “amigos”? 
E ela é amiga desses ditos ‘amigos’? 
Ademais, como saber que o livro é “mesmo bom” sem o ler? - como conclui a "Maria Antonieta de Ipanema". Será que até suas leituras, tal como as viagens, eram apenas cópias do que “os mais ricos” faziam? 
Que pena! Seu poder era ilusório, restrito a sua ínfima visão pequeno-burguesa, repleta de preconceitos e de interesses particulares, que tão bem caracteriza a mentalidade estúpida da direita política brasileira.

domingo, 21 de outubro de 2012

Ótica de Eros

Beijo de Eros e Psiqué
Desejo 
ver você desejando
meu desejo timoneiro
Olhando-o
pegando-o
e alimentando-o 
lábio a lábio
à embocadura
E em seu mel
saboreando-me pura
a penetrar no seu desejo
tal como abunda
bela sua vontade 
de saciar nosso prazer
em beijos de corpo inteiro!
(Kónilos Elaian)

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Acerca da Greve da UERN

Gosto do termo "acerca" em títulos sobre determinados assuntos! É que sua homofonia provoca a pensar sobre a cerca, os limites, os empecilhos a respeito dos quais se dá o problema a ser discutido. Pois bem! Então, o que nos cerca nessa situação da greve da UERN?
Homenagem à juíza que demonstrou independência e senso de justiça
Parece que todos já sabem que esta nova paralisação das atividades na UERN, desde 02 de maio último, configura-se numa continuação da greve anterior, decorrida por 106 dias desde 31 de maio de 2011. Embora, a princípio, eu hesitasse quanto a radicalizar este movimento, convenci-me de sua necessidade ao compreender que se a greve anterior foi considerada legal, pela Justiça, e foi interrompida graças ao acordo entre o governo do RN e as categorias trabalhadoras representadas pela ADUERN e pelo SINTAUERN, o descumprimento do acordo, por parte do governo, simplesmente nos obrigava a retornar à greve. E, felizmente, parece que foi esse também o entendimento da juíza Sulamita.
Como bem disse Saulo, o representante do Diretório Central dos Estudantes da UERN, antes os alunos não queriam a greve, pois sabem que são eles os maiores prejudicados. Por isso participaram ativamente em todas as assembleias dos professores e nas negociações com o governo. Contudo, ao término da última reunião, além de não apresentar qualquer proposta para evitar a paralisação o governo foi flagrado no twitter propagando que os alunos estavam contra os professores. Na audiência pública na Assembleia Legislativa Saulo denunciou tal flagra de má fé e reafirmou que os estudantes não queriam a greve, mas apoiavam os professores, uma vez que o governo não se dispôs sequer a negociar qualquer ponto das pautas como, por exemplo, o descontingenciamento da verba da Universidade para a dignidade do trabalho e do estudo universitários. 
Saulo, representante do DCE da UERN
Curiosamente, o procurador do Estado, Miguel Josino, disse em seu discurso na Assembleia que o seu "papel é técnico", pois que "entende a legalidade da greve" e a "justiça do pleito dos Servidores" e que uma "decisão judicial é para ser cumprida". Ora, a legalidade da greve ele parece reconhecer apenas "tecnicamente" pelo seu papel de Procurador, em mera obediência positivista à decisão judicial. Então, por que entrou com recurso em instância judicial superior? Ora, porque a governadora mandou. E para que tal recurso, senão para postergar o fim da greve, uma vez que o técnico judiciário "entende a legalidade da greve e a justiça do pleito dos Servidores"?! 
Da suposta verdade do seu discurso infere-se que ele impetrou o recurso tão somente por ordem da sua governadora, o que o torna apenas um testa-de-ferro do governo do demo! Pois, quanto à justiça do pleito dos Servidores? O que ele entende por justiça, se não lhe houver uma ordem superior determinando? Imaginem se fosse ele, ou alguém como ele, o juiz a julgar o caso! O que haveria de justiça a se esperar de um escravo do poder? - como diria Aristóteles!
O secretário Albert, da Administração (fechada) do governo, valeu-se apenas em falar de ter recebido os Professores e conversado com o Reitor da UERN. Contudo, a pseudo proposta que ele defenderia nem constava no documento distribuído entre a comissão, como bem observou o Professor Flaubert, presidente da ADUERN. Ele, então, estarreceu a plateia ao reconhecer que fora aluno da UERN, demonstrando não ter qualquer zelo ou respeito pela entidade onde se formou em direito. Será que ele fez direito? Paradoxalmente, seria ele discípulo ou mestre do seu antecessor, professor Anselmo? O que pensarmos dessa formação que gerou tais secretários? O que pensarmos desse governo sustentado por tais assessores?
Prof. Flaubert, Presidente da ADUERN
Ao cumprir o seu papel de mediador, para que o palco e o programa televisado não ficassem apenas em propaganda política e discursos vazios, o deputado Fernando Mineiro exigiu que alguma proposta concreta decorresse daquela audiência. Foi então que a posição do governo se evidenciou graças à proposta do Professor Neto Vale que, praticamente, clamou ao secretário receber-nos em comissão numa audiência na segunda-feira seguinte (25/06).
Além disso, o Professor Gilton acrescentou ao clamor, quase que desesperadamente, uma concessão de ideia, como quem dá dinheiro ao seu devedor para este lhe pagar o que lhe deve, sugerindo parcelar a parcela já devida desde abril e postergada desde setembro de 2011.
O secretário, entretanto, não atendeu à solicitação, apesar de o deputado Mineiro observar que qualquer proposta precisa ser aprovada como Lei, na Assembleia; a qual entra em recesso na próxima quinta-feira (28/06), só retornando em agosto.
Ora, o que se depreende disso tudo? Por que apesar de todas as tentativas de negociação, de mobilização política dos Professores, Técnico-administrativos e Estudantes, da derrota no judiciário e até da mediação do Legislativo, por que a governadora Rosalba (do demo) não se dispôs a negociar? O que mais nos resta senão os Estudantes assumirem a frente do processo acionando o Ministério Público para punir o governo pela "violação ao direito constitucional à educação" deles que são os maiores prejudicados nesse impasse? Afinal, foi esse o argumento do governo para pedir a ilegalidade da greve. E se ela é legal, então quem viola tal direito é o próprio governo.
Estudantes em Defesa da UERN na Assembleia Legislativa do RN
Além disso, os Estudantes tem pauta própria de reivindicação, como bem observou o seu representante. Talvez tal processo não seja muito conveniente ao movimento político dos Sindicatos, mas, certamente mostraria a força do movimento estudantil, abrindo precedente, como jurisprudência para lutas futuras contra desgovernos sobre a nossa Educação.
Enfim, se nenhuma solução decorrer dessa intermediação do deputado Mineiro junto ao governo, pela "justiça do pleito dos Servidores", a consequência é a estúpida demonstração de incompetência dos nossos representantes no governo e no Legislativo; uma vez que tudo está documentado em áudio e vídeo, televisado pela própria TV Assembleia e assistido e regravado por milhares de eleitores espectadores de um longo debate sobre a importância da Educação superior em nossa sociedade norte-riograndense. Em suma, eis a cerca que nos prende à greve: o descaso com a nossa Educação. 

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Acerca das Cotas Raciais

Ontem (21/05/2012) o Supremo Tribunal Federal julgou improcedente a ação do Partido do Demo contra as cotas raciais. Nem vale a pena rebater argumentos ou fomentar qualquer discussão, pois, afinal, já está decidido.
Entretanto, embora tardiamente, algumas discussões acaloradas me fizeram pensar sobre o que me pareceu o ponto comum, para não dizer o consenso, entre os debatedores: “todos sabem que é paliativo”. Então, por que consertar um erro com outro? Além disso, todos concordam que há um “mal entendido” como ponto de partida. Mas qual é ele? 
Sinceramente, duvido que essa compreensão do STF se desse em outra situação política e econômica do Brasil. Graças a isso, desde o governo Lula (o dito “presidente analfabeto”) tem-se, de certo modo, dado vez e voz aos socialmente injustiçados, como alguns trabalhadores, negros e mulheres em altos cargos do poder público.
Costumo dizer que o comportamento do povo se espelha no dos seus governantes, enquanto o destes se pauta pela sociedade organizada. Daí a necessidade de que eles sejam moralmente exemplares, desde a escolha dos seus assessores e gestores das repartições públicas, haja vista serem estes o elo entre os governantes e o povo. Pois, a partir do modo como eles trabalham é que vai funcionar o serviço público. Se os primeiros não visam ao público, os funcionários farão o mesmo.
O grande exemplo disso me foi dado quando José Agripino (PFL/Demo) foi governador do Rio Grande do Norte: quão ridículo ou constrangedor era precisar resolver algo numa repartição pública como o Detran: ninguém queria lhe atender sem um intermediário, a quem se pagava para chegar até o funcionário. Com a mudança de governo, entrar no Detran tornou-se algo até prazeroso, numa sensação de alívio semelhante a ligar o rádio na quarta-feira de cinzas e não ter que ouvir mais nada de carnaval.
Embora haja críticas morais ao governo Lula, pois, como diz o Professor Edmílson Lopes Jr. [1], é o único aspecto sobre o qual a nova oposição consegue apontar, evidentemente por que não conseguiu fazer melhor enquanto esteve no poder, apesar disso somente sob forte glaucoma preconceituoso se pode negar que o Brasil melhorou na última década, inclusive e principalmente, no panorama internacional. E junto com os últimos governos cresceu também a força política dos movimentos sociais de base, que há tempos reclamava por inclusão social dos discriminados por classe, gênero, idade, sexualidade, deficiência física, raça etc. Graças a essa voz é que entrou na vez da inclusão social a cota racial para as vagas de estudo nas universidades públicas brasileiras. Contudo, todos admitem que é apenas um paliativo, visto que o correto seria investir no fortalecimento do ensino básico nas escolas públicas.
Ora, se "todos sabem que é paliativo", vale lembrar ovelhodeitado: "um erro não conserta o outro"; pois, em vez de fazer justiça àqueles ditos de raça que não entraram na universidade pública, comete-se injustiça contra tantos sem raça que nem podem participar da cota nem foram causadores dessa dívida social. 
Como dizia o Presidente, nunca antes na história desse país foram criadas tantas universidades como no seu governo; então, por que não se colocou nelas o critério racial, em vez de reduzir as vagas existentes? Isso certamente tornaria menos amargo o paliativo. Além disso, vale ponderar sobre as consequências: que atitude pode decorrer do sentimento gerado naqueles estudantes que perderam a vaga para quem demonstrou menos conhecimento que eles, se este deveria ser o principal critério, junto com o paliativo socioeconômico (cota de escola pública)? Que valor os excluídos da cota podem reconhecer na educação, nos esforços de seus estudos? Se o critério racial tivesse sido aplicado exclusivamente nas vagas das novas instituições e dos novos cursos, certamente nenhum candidato se sentiria injustiçado pela nova regra, uma vez que as vagas não estariam sendo reduzidas, mas apenas inovadas.
Em que consiste, então, o “mal entendido”? Parece-me que ele decorre do avanço da força dos movimentos sociais ao conquistarem, com justiça, a reserva de cotas para deficientes no mercado de trabalho. Como a Universidade prepara para o mercado, fez-se uma confusão entre conhecimento e trabalho, ao se pretender ampliar a inclusão social no âmbito do conhecimento, como se o critério fosse o mesmo.
Todavia, a cor da pele tem nada a ver com capacidade mental, nem mesmo com injustiça educacional no Brasil, uma vez que muitos ditos de raça, felizmente, sequer estudaram em escola pública. Ora, observe-se que, grosso modo, se de 40 vagas reservam-se 10 para cota racial e 15 para escola pública, retiram-se 5 vagas dos sem raça de escola particular e 5 vagas dos sem raça de escola pública. Àqueles, talvez o prejuízo pareça maior no bolso dos pais que, além dos 11 anos de escola paga ainda terão que pagar cursinho. Mas não se pode esquecer o drama psicológico de um adolescente que não conseguiu retribuir aos pais no tempo devido o investimento em sua educação, nem pode buscar emprego porque não foi preparado para isso até então e ainda se sente injustiçado pelas regras. 
Contra os sem raça da escola pública, contudo, a injustiça pesa duplamente: por que nunca puderam estudar em boas escolas; e ainda por terem nascido sem raça para participar da cota racial em vista de um melhor conhecimento para o mercado de trabalho. Além disso, tais indivíduos, geralmente, já tem seu tempo de estudo tomado pelo de trabalho.
Vale ainda considerar que a enorme demanda por vaga universitária nos grandes centros urbanos tem feito migrar muitos estudantes de ótimo nível para ocupar as vagas nos menores centros. Agora imagine que os incompetentes governos locais decidem reservar vagas em cotas para seus concidadãos, restringindo as vagas em detrimento dos estudantes imigrantes; quais as consequências sociais para o nosso Brasil continental e regionalizado?
Ora, uma vez que no tocante às cotas raciais tudo já está decidido pelo STF, resta-nos tão somente observar: qual o prazo desse paliativo? 10 anos? 20? Uma geração? Pois, para quem está na Universidade qualquer tempo é muito pouco. Mas para quem está querendo entrar, um ano já é muito tempo sob a sensação de injustiça de ser preterido apesar dos seus esforços e de não ser o causador da dívida social histórica da classe dominante desse país.
[1:http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5317834-EI17080,00-A+pergunta+do+Giannotti.html]

domingo, 20 de maio de 2012

Do Mérito da Lição

Como disse o filósofo medieval, Agostinho de Hipona, nós falamos para ensinar. E mesmo numa pergunta estamos ensinando ao outro o que não sabemos. Eis a lição agostiniana da linguagem. 
Macaco Pensador contemplando a lua
Disso penso que se nada consigo ensinar com minhas palavras, então prefiro calar-me, seguindo o preceito wittgensteiniano. Afinal, por que desperdiçar minha energia se eu posso aprender observando, em vez de ensinar falando? O pressuposto ainda é a crença de que o outro possa aprender com o meu silêncio, sem desgaste, desde que o silêncio se torne um desafio para o outro, como princípio aristotélico da educação. Pois, que prazer estúpido é falar do que sei a quem nem entende o que digo? Talvez nem ouça o que falo...
Mas, o que ele aprenderia, para além das palavras? Só saberei pelo seu discurso ou pela sua mudança de comportamento. E que mérito teria o meu silêncio na sua aprendizagem, se o esforço foi dele em superar o desafio? Dialeticamente, o mérito é proporcional à capacidade dele em apreender a relação entre minhas palavras e meu silêncio. E parece-me que só sua própria sabedoria seria capaz de valorizar.
Isso me lembra quando fui a um caixa-rápido dentro de um supermercado e estranhei a disposição da fila. A máquina fica ao lado do banheiro da loja. E as duas pessoas da fila seguiam a tendência, que é posicionar-se atrás de quem está sendo atendido. Isso me parece um erro, em serviço bancário, pois provoca a desconfiança sobre a curiosidade de quem está atrás do usuário em atendimento. 
Além disso, observei que com o crescimento da fila os próximos clientes entrariam no banheiro ou ficariam à sua porta, constrangendo os que necessitassem passar por ela. Então, apenas conferi com o último da fila se ele estava para utilizar aquele caixa e me posicionei do lado oposto, de frente para eles e ao lado da máquina, de modo que não tinha acesso à tela nem ao teclado. Mas avisei que eu estava na fila, para testemunharem que o próximo cliente a chegar deveria prosseguir a fila a partir de mim, na direção contrária ao banheiro.
Fila
Interessante é que logo chegou um rapaz e, como é comum, dirigiu-se para trás dos outros. Mas o seu antecedente lhe fez um gesto apontando pra mim, sem falar. Ele, então, perguntou-me, curioso: você está na fila? Eu lhe respondi que sim e justifiquei: ...é que se ficarmos aí, os próximos terão que entrar no banheiro ou constranger quem for entrar. Ao que ele concordou e me seguiu.
Mais interessante é que ele não se conteve e, já configurando a nova fila, anunciou: "Gostei! Acho que ninguém tinha pensado nisso ainda." E eu acrescentei: ...nessa posição não incomodamos ninguém, pois nem há perigo de curiarmos a tela nem o teclado enquanto outro está sendo atendido.
E ele reforçou entusiasmado: "Valeu! Você pensa por si e pelos outros." Ao que lhe respondi: alguém tem que fazer isso. E completei: Valeu! Você pensa e sabe reconhecer o que é o melhor para si e para os outros.

sábado, 5 de maio de 2012

Nova Lição

Há alguns dias eu estava passeando de bicicleta e fui calibrar-lhe os pneus na borracharia de um posto de combustível. Com um "bom dia!" habitual cumprimentei o borracheiro e os clientes. Perguntei, então, se eu poderia usar aquele equipamento, mas o borracheiro não me respondeu. Apenas pegou-o para calibrar os pneus de um carro de uma motorista. Ao terminar, ele me entregou a mangueira do calibrador e foi terminar outro serviço em outro carro.
Enquanto eu fazia o meu serviço eu o ouvia dizendo para outros dois clientes: "há duas coisas que as pessoas falam e que não servem pra nada: 'deus lhe pague!' e 'obrigado!' O que é isso?". Vi no questionamento oportunidade para uma boa reflexão filosófica. Mas, pela situação, presumi que o falante estava a reclamar da motorista, que nem saiu do carro e talvez só lhe tenha dito "obrigada" ou "deus lhe pague". Ele ainda descartou o "deus lhe pague", alegando que só receberia em outra vida na qual, aparentemente, ele não acreditava; então, em que isso lhe agraciaria?!
O cliente a quem ele ora atendia apenas escutava. Mas alguém que ora prestava serviço ao posto, retrucou: "É uma questão de educação dizer 'obrigado'. Mas se você não tem educação... o que se pode fazer?!". 
Eu já pensava em lhe perguntar se ele quereria saber realmente o que significa "obrigado". Mas quando ele respondeu "Educação?! Educação não paga serviço, não"; eu logo percebi que ele nem poderia querer saber, pois, pelo seu discurso, a sua sabedoria se limitava a coisas concretas. Ora, se nem por medo, próprio do senso comum, ele apreendera a ideia de um pagamento divino, como apreenderia a ideia de um "obrigado" ou de "educação"?
Daí eu o compreendi como exemplar de um aspecto mítico da racionalidade, em cuja linguagem as palavras só tem sentido se elas não apenas se referem, mas denotam, de fato, algo concreto como, por exemplo, "dinheiro". Por isso, para ele, "educação" não faz o menor sentido. Tanto é que ele acrescentou, dirigindo-se ao dono do posto: "Então, não paga a ele, não; diz apenas 'obrigado' e pronto".
Eu já havia terminado o meu serviço e estava, então, montado na bicicleta pensando sobre como eu poderia lhe dizer que seu raciocínio correspondia à mentalidade primitiva, pela qual se promoviam sacrifícios de vida animal ou humana, para render graças aos deuses, em agradecimento por alguma graça alcançada, como uma boa colheita ou como a vitória numa guerra, por exemplo. 
Mas, valeria a pena dizer-lhe que "obrigado(a)" significa agradecido(a)? E que estar agradecido significa dar graça ou agraciar? E que dar graça ou agraciar é, de fato, fazer algo em reconhecimento ao serviço prestado, ou seja, à graça recebida? Afinal, nesses termos, eu tinha que concordar com o raciocínio dele em esperar não apenas um "obrigado", mas, sim, um dinheiro ou algo em troca do seu serviço. E, daí, como lhe explicar que há centenas de anos a racionalidade mudou, juntamente com as relações sociais cuja modernidade apenas endeusou a concretude do dinheiro?
Sob a imediatidade da questão e do meu passeio, logo decidi apenas sorrir-lhes e silenciar-me, saindo sem lhe agradecer pela lição nem me desculpar pelo uso do ar comprimido, evitando assim que ele me cobrasse duplamente.

domingo, 18 de março de 2012

Uma Prosa Filosófica

(Ana Carla Azevedo: aluna de Letras-UERN)  
Eu vou contar eu vou contar
Se você quiser ouvir, faz favor de escutar

Pra início de conversa
Vamos nos apresentar
Eu me chamo Ana Carla
Alcione pra juntar
Josenildo e Moisés
Pro trabalho apresentar

Ainda tem por derradeiro
O Francisco e a Vitória
Completando o nosso grupo
Que lhes conta uma história
Mas primeiro nos permitam
Relembrar a trajetória

Filosofia da linguagem
É matéria arretada
É confusa, tem mistério
Não me deixa sossegada
Com William, o Coelho
A festa ta arranjada

Meu senhor, minha senhora
Não me venham enganar
Eu sei que faz três dias
Que não param de pensar
Sem comer e sem dormir
Com o trabalho a preocupar

Friedrich L. G. Frege (08/11/1848-26/07/1925)
Mas agora se acalmem
Que já já vai terminar
Encerramos a matéria
Esse tal filosofar
E pra num perder a rima
O Frege vai começar: 

Esse menino é um vate
De mão cheia e coração
Ele pensa a palavra
Com sentido em comunhão
Com um valor de verdade
Em sua denotação

O sentido é social
O conceito predicativo
Quem denota diz um fato
Não tem nada de inventivo
Quem procura a verdade
É porque ainda tá vivo.

Esse outro é um mestre
De verdade ele entende
Representa nosso mundo
Vai a fundo e não mente
É o Wittgenstein  
Que completa o precedente
Ludwig Wittgenstein (26/04/1889-29/04/1951)

Já me diga seu doutor
Aonde vai sua linguagem
É real ou é estado
De coisa sem ter passagem
Ou é a totalidade
De um rio sem a margem?

O que penso tem a lógica
De uma proposição
Forma interna mais externa
Torna válida a ação
Assim como um fato existe
Com sua denotação

O Filósofo questiona
O poeta é sonhador
Mas me diga sem demora
Como é que pode Seu doutor?
O que a linguagem exprime
Não expressa minha dor.

Esse mesmo seu menino
Causa uma reviravolta
Aquilo que não se fala
Não deve causar revolta
A linguagem é um espelho
Tem uma ida e uma volta

Cada um tem seu falar
Com significação
A letra só tem sentido
Quando toma a ação
Já começo a entender
A partir da descrição

Joga quem joga o jogo
Ganhador ou perdedor
O grande intelectual
Tem que ser bom jogador
Ter a ingenuidade
Para ser o vencedor

Esse jovem de agora
Que por certo eu vou mostrar
John L. Austin (28/03/1911-08/02/1960)
É o chamado John Austin 
E seus atos de falar
E um tal de locutório
Que me faz enunciar

Nem toda a sentença
É correto ajuizar
Positiva ou negativa
Era só pra declarar
Mas o ato é plural
Pra dimensionalizar


Se eu contar,vou ordenar
Avisar e criticar
Esse tal ilocutório
É difícil de mandar
Mas convido a vocês
Sem ter de ameaçar

Sem ter de ameaçar
Esse povo ou nação
Faço o convencimento
Sem precisar ler a mão
Perlocutando o alocutário
Usando persuasão

John Searle (31/07/1932)
Esse outro professor
Que também vou discorrer
É de mesmo nome John
E de mesmo proceder
Os atos de locução
Searle pôde perceber 
Classificou e dividiu
Tudo aquilo que enuncia
Assertivo, diretivo
Expressivo, já sabia
Declara e compromete
O que o homem já fazia

Porque tudo o que digo
Trás também uma intenção
Trás a força marcadora
Que diz que a situação
Do mundo em que eu vivo
É fonte de inspiração

O discurso é singular
Reconhece o falante
Se é falso, se é verdade
Se inútil, ou importante
Martin Heidegger (26/09/1889-26/05/1976)
O que digo, realizo
Eu sou mesmo performante

Como Heidegger dizia 
Sobre o ser-situação
A linguagem realiza
O humano na ação
É a sua epifania
Sua manifestação

A palavra é o que sustenta
O ser na evolução
O falar original
É de grande relação
E a linguagem derivada
É de grande comunhão

Eu percebo e respondo
Isso é existencial
Toda fala anunciada
É resposta para tal
E a minha servidão
Me liberta afinal

Se você tiver cansado
Agüente mais um instante
Para gente finalizar
Habermas vem adiante 
Explicando a pragmática
Universalizante

Jurgen Habermas (18/06/1929)
O que é Universal?
Já pensou nesse porém?
Aquilo que abarca tudo
Que todo mundo tem
E também o que é comum
Que vai sempre mais além

A teoria da ação
Comunica o pretexto
Cada falante é ativo
Dentro do próprio contexto
A sentença realiza
E se transforma num texto

Só consigo entender

O parceiro de conversa
Quando chega a um consenso
Do causo e da promessa
Do nível dos objetos
Sem nenhum ter muita pressa

Se concebe verdadeiro
Quando assim o predicado
Se aplica ao objeto
Ora antes indicado
E o tema do real
Lhe dá o certificado

O conceito de razão
Antes tão enclausurado
Pelo termo científico
De uso determinado
Transcende seu valor
Agora transformado

E pra fechar esse discurso
Fonte de multiplicação
Digo que o ponto x
Da nossa apresentação
Não é a linguagem em si
Mas sua utilização.
Som da Linguagem

Por vezes reaprendo 

o som inesquecível da linguagem 
Há muito desligadas 
formam frases instáveis as palavras 
Aos excessos do céu cede o silêncio 
as constelações caem vitimadas 
pelo eco da fala 

Gastão Cruz, in "Campânula

quinta-feira, 8 de março de 2012

À MULHER

Para além das minhas mulheres: filhas, princesas, francesas, pequeninas, meus amores!
A vida seria sem graça sem você, MULHER: de filha a mãe, de inocente a sedutora, de namorada a amante; pela vida que geras e pela graça que dás ao prazer de te fazer feliz, no seu Dia e para todo o sempre!
AMEM e amém!!

domingo, 29 de janeiro de 2012

Educação de Pais e Filhos

Tenho dito que nossas crianças acreditam que pela autoridade de pais teríamos também a autoridade de “sábios”. E nós nos valemos disso. Dificilmente conseguimos descer do pedestal de autoridade que elas nos proporcionam. Contudo, ele se torna tanto mais alto quanto mais certezas colocamos em nossas respostas. E quando os filhos, no seu saber infantil, questionam nossas certezas, geralmente os corrigimos dizendo: Isto não é pergunta pra criança! Ou: Ainda não chegou o seu momento de saber disso! Ou até mesmo: Eu sou seu pai! Como se disséssemos: quem sabe, aqui, sou eu, você não tem que duvidar; só obedecer
Entretanto, não percebemos que quanto mais alto o pedestal de autoridade paterna, maior a distância entre pais e filhos. Daí, como eles podem constatar o nosso ensinamento? A quem eles podem recorrer? Restam-lhes os colegas da rua, que lá estão com as mesmas dúvidas, porque certamente já sofreram o mesmo distanciamento sob o pedestal de seus pais. Então, a fome de saber os coloca à mercê dos mais velhos, mais experientes. E agora?! Que fazer? A quem reclamar a educação dos nossos filhos? À Escola? E quanto à educação dos pais?
O papel da Escola não é a educação prática da vida. A Escola nos prepara para a vida teórica: os conceitos, os nomes corretos das coisas, a classificação dos seres, o conhecimento da Natureza, a explicação dos fenômenos do mundo, os modos corretos dos usos da língua que falamos, os modos de quantificar coisas, aumentar, distribuir etc. Em suma, prepara-nos para atividades técnicas, profissionais. No entanto, as pessoas vivem independentemente desse saber teórico. ...Por vezes até, possuir tal saber não significa viver melhor do que quem possui apenas o saber prático, o saber da boa relação com os outros, da responsabilidade com o mundo.
Assim, talvez seja um tributo muito alto atribuir aos pais a responsabilidade pela má educação dos filhos. Mas, considerando o princípio segundo o qual conhecer é poder, o pai, que de antemão conhece mais que o filho, sobre este ele tem poder de ensino. Ora, quem tem o poder tem também a responsabilidade sobre a educação. Em outras palavras: quem detém mais saber detém também a responsabilidade do educar.
Entretanto, talvez ainda se possa alegar que os pais, embora detenham mais saber que os filhos, infelizmente, nem sempre têm a consciência de tamanha responsabilidade: educar bem os filhos, ou seja, prepará-los teórica e praticamente para o mundo, o qual carece ser melhorado para as futuras gerações. Mas, em que ou como ele vai melhorar se as pessoas não se tornarem melhores? Ocorre que às vezes os instruímos nas melhores escolas, com o máximo de teoria, mas falhamos na prática. Todavia, às vezes os instruímos com o melhor de nossa prática, porém desprovida de uma teoria que a justifique. Ora, geralmente, o melhor de nossa prática diverge da prática comum do mundo. Por isso carecemos de uma fundamentação teórica.
Então, estamos sós: só nós pais e nossos filhos. A quem podemos reclamar tal educação integral? Como integralizar a educação prática da família com a educação teórica da Escola, se algumas famílias sequer têm noção da responsabilidade dos pais na educação? Afinal, se a educação dos filhos está ruim, deve-se à má educação dos pais. Ora, reclamamos aos pais a falta de educação dos filhos, mas a quem reclamar a falta de educação dos pais, como cidadãos? Eis uma questão política disfarçada de ética. 
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