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quinta-feira, 18 de agosto de 2022

RETALHOS DIALÉTICOS DE UM VOCABULÁRIO PEDAGÓGICO FILOSÓFICO

Considerando que ensinar e aprender mantém relação dialética entre si e com tudo o que diz respeito à educação e, por conseguinte, com toda relação social e com a Natureza, uma vez que não há educação sem ensino nem ensino sem aprendizado, então o que se expõe a seguir é uma teia pedagógica de retalhos dialéticos entre vocábulos organizada alfabeticamente e numericamente, conforme a tematização, visando a ensinar, num gesto de amor pedagógico, o que foi aprendido pensando, num gesto de amor filosófico; quiçá, um sumário em processo para uma Filosofia da Educação.

1.  AMAR é cuidar da preservação do ser valioso, pela qual se fortalece a relação de aperfeiçoamento do Ser.

2. BOMDADE é a condição de realização da plena liberdade de consciência, uma vez que ninguém é obrigado a ser bom, a fazer o bem, embora a vida em sociedade obrigue a não ser mau, a não fazer o mal.

3.  Embora, pedagogicamente, presuma-se o ato de ensinar como anterior ao de aprender, vale observar que, genealogicamente, o aprender é primordial, enquanto o ensinar é apenas pressuposto, uma vez que os primeiros aprendizados derivaram, certa e tão somente, da observação do aprendiz sobre o comportamento da Natureza, sem que ela tivesse qualquer intenção de ensinar. Nesses termos,

3.1.     APRENDER é, poeticamente, atuar sob nova visão ou crença; e, filosoficamente, é agir conforme uma nova percepção; assim,

2.2.     ENSINAR é, poeticamente, fazer ver, ou seja, dar nova perspectiva, fazer acreditar; mas, filosoficamente, é fazer perceber. Isto é: induzir a uma crença.

3.      Em vista da relação entre crença, fé e confiança:

3.1    CRENÇA é o ato deliberado de dar crédito ao que parece justificar a própria vida prática, coincidindo com ela por se identificar com o desejo de respeito e proteção. Ou seja: é o ato de acreditar no que lhe garante a comodidade contra aquilo que se ignora.

3.2    CONFIANÇA é o ato de dar fé à atitude de outrem baseando-se na experiência sobre a responsabilidade dele em atuar conforme suas crenças (de ambos): é uma aposta numa tendência de comportamento.

3.3    FÉ é a ratificação da ignorância: é uma aposta na mera vontade sobre aquilo que independe do sujeito para acontecer.

4.     CUIDAR é o ato de respeito e gratidão por aquilo que é valioso ao cuidador: é a responsabilidade em ato, isto é, a realização, efetivação, concretização da responsabilidade.

5. DIDÁTICA é a capacidade de uso ou criação de jogos pedagógicos com as ferramentas adequadas ao público correspondente para a tradução do aprendizado.

6.  DUVIDAR é exercitar o pensamento sobre a possibilidade de haver algo além do que aparece; epistemologicamente, é a condição de possibilidade de crítica sobre a indeterminação dos modos do ser se manifestar. Em outras palavras: é questionar porquê tem que ser tal como se apresenta.

7.  EDUCAR é, fundamentalmente, ensinar proteção e respeito: pelo fortalecimento da sociedade em vista da qual se dá o aperfeiçoamento do indivíduo, cujo aprendizado se faz pela sua autonomia ao sentir-se protegido e pelo respeito ao reconhecer-se respeitado.

7.1.   AUTONOMIA é a condição motivadora própria do sujeito para o agir conforme e em vista do aprendizado. Ou seja: é a condição pela qual o indivíduo busca e demonstra o seu aprendizado. Isto é: sem a decisão individual de querer aprender, não há como ensinar.

8.   ESCOLA é o ambiente de fortalecimento da educação.

    8.1 FORTALECIMENTO é a sensação de segurança para atuar.

9. FILOSOFIA é o discurso crítico demonstrativo com pretensões universais que se realiza no exercício de questionar e tentar responder racionalmente sobre três questões básicas – O que é? Por quê é? Para quê serve? – fundamentais para o viver entre os seres humanos e naturais como constituintes do Ser, ou seja, do real em sua totalidade. 

10.  GRATIDÃO é o reconhecimento sobre o serviço alheio ou valorização do seu esforço, através de energia contagiante que estimula reforçá-lo ou ampliar o serviço.

10.1.   INGRATIDÃO é ato de injustiça: desrespeito e falta de responsabilidade com o que lhe foi concedido.

10.2.   ENERGIA é, poeticamente, o meio pelo qual os seres se apaixonam, isto é, se afetam: ontologicamente, é o modo íntimo do ser, pelo qual os fenômenos se manifestam para além da linguagem individual; e, epistemologicamente, é a condição de possibilidade de acesso à espiritualidade.

10.3.   ESPÍRITO é a energia ignorada.

11.  HUMANO é o animal capaz de criar necessidades além da vida prática e disposto a transformar-se ou mudar o ambiente para satisfazê-las: é o modo de ser com aspiração ao aperfeiçoamento espiritual.

12.   INTENÇÃO é a motivação para agir.

13.   JOGO é o modo de criação pelo qual se possibilita a interação pelo prazer de aprender, que gera o aprendizado constante.

14.   JUSTIÇA é a correção como lição da responsabilidade. Difere da BONDADE, cujo ato é insuficiente para a devida correção; e da VINGANÇA, por cujo ato se excede a correção. 

15.   KÓNILOS é um pseudônimo grego com pretensões filosóficas de proteção ao anonimato.

16.   LIÇÃO é o conteúdo do aprendizado.

17.   LINGUAGEM é a condição de possibilidade de expressar sentimento ou pensamento.

18.   MÉRITO é a responsabilização pelos próprios atos.

19.   NOTA é a quantificação de uma avaliação que, por justiça, deve corresponder ao mérito.

19.1.  AVALIAR, pedagogicamente, é valorizar o processo de ensino, através do aprendizado: quantificando-os ou qualificando-os.

20.   OBSERVAÇÃO é a capacidade intencional para aprender; é a autonomia de busca do aprendizado. Em suma, é a atitude primordial do aprendiz.

21.   PACIÊNCIA é o respeito ao tempo alheio, sem a qual não há didática.

22.   PROTEÇÃO é a preparação para agir.

23. QUESTÃO é a tradução de uma dúvida numa pergunta. 

24.   RAZÃO é a condição de possibilidade para a universalização de compreensão do discurso sobre os seres.

25.   RESPEITO é o reconhecimento do valor do outro, sem o qual não há confiança.

26. RESPONSABILIDADE é a capacidade de responder demonstrando cuidado pelo que lhe é, merecidamente, concedido ou conquistado. Assim, 

26.1. ENSINAR RESPONSABILIDADE é fazer ver que a cada resposta dada pelo indivíduo cuidador sobre o que lhe foi concedido ou conquistado decorre o seu aperfeiçoamento e o fortalecimento da relação social pela qual ele é educado.

27. SERVIÇO é o modo pelo qual uma relação se concretiza, graças a um esforço ou em vista de uma finalidade alcançada.

28.   TRABALHO é o serviço por cuja intencionalidade o humano se distingue dos outros animais.

29.   TRADUÇÃO é, pedagogicamente, a transformação de um aprendizado em um modo de ensino.

30.   UNIVERSAL é a aspiração de compreensão comum entre os seres em qualquer tempo ou lugar.

31. UNIVERSIDADE é o ambiente institucional de aprofundamento do saber em vista dos fundamentos para uma profissionalização.

32. VALOR é o indicativo do prazer, ou da dor, numa relação.

33. VERDADE é a crença, objetivamente e racionalmente, justificada. É o pressuposto de todo discurso com pretensões educativas.

34. WILLIAM é um nome inglês por cujo jogo de letras pode-se traduzir: “eu sou desejo” de proteção.

35.   XAMIRRANHA é o pseudônimo para um nome ignorado.

36.   YUKIKO é a dúvida irônica sobre a responsabilidade: yukiko tenho com isso?

37. ZÉ NINGUÉM é o pseudônimo de quem não se presta nem pra ter nome.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

CARTA ABERTA À OPOSIÇÃO UERN DIFERENTE

Caras/os Companheiras/os!

Perdoem-me pelo prolongamento do meu tempo neste grupo!

Tentei poupá-los de qualquer comentário que lhes obrigasse a me excluírem, pois eu pretendia apresentar-lhes um textículo (com X mesmo... rs) registrando as minhas razões para eu próprio me excluir, embora já as conheça quem participou da reunião na qual expus meus questionamentos.

Outras tarefas, no entanto, têm me feito adiar, até para não personificar, uma análise de alguns discursos neste grupo reveladores de como a linguagem revela o humano, principalmente na política.

Mas a angústia ética em continuar acessando as mensagens e estratégias deste grupo tendo que as ignorar sem as rebater, apesar da minha discordância, me impele a despedir-me sem o textículo que analisaria tais falas.

Credito, porém, à maturidade das/os companheiras/os a capacidade para entenderem que minhas críticas e observações jamais seriam pessoais. 

Se insisti em permanecer neste grupo foi na expectativa de evitarmos o mal maior: a oposição disputar entre si como se fosse uma convenção partidária para apresentar seus candidatos – à futura eleição UERN 2025 –, haja vista sabermos que a oposição dividida só tira voto dela mesma, e pelo fato de que os candidatos escolhidos no grupo anterior surgiram dentro das regras gestadas no grupo formado por nós, o qual já derivava do grupo originário que vem discutindo a oposição na UERN desde o século passado, como o #EmDefesaDaUERN, depois #UERNemLuta, #UERNemResistência, #SucessãoUERN, #EleiçõesUERN, #ColetivoOposiçãoUERN, #ColetivoRelus, #UERNdemocraciaeLuta e o mais recente, mas, provavelmente, não o último, #UmaUERNdiferente, dos quais, sucessivamente, o núcleo formador foi se excluindo e criando os subsequentes subgrupos e sempre convidando mais gente que “convida mais gente”, tal como um grupo de playboys que promove uma festa [da oposição] e, depois que os convivas apresentam novos convidados, o núcleo sai para fazer sua própria festa reservada em outro lugar deixando-os na festa vazia e convidando novos a participarem do novo encontro como se fosse uma nova festa por estarem em outro local. Por que tanto exclusivismo? Por que tanta discriminação? Queremos só a festa privada ou conquistar a praça pública?

Parece, no entanto, que da última vez esse núcleo se ressentiu porque os convivas, sedentos pela festa [da oposição], trouxeram novos convidados e todos resolveram assumi-la e “convidar mais gente”, cuja sede pela conquista da praça pública tem feito a festa continuar rolando. Por que temos que atrapalhar a festa alheia se nós já aprendemos que duas festas da mesma comunidade não atraem ninguém da praça a ser conquistada, tampouco retira dela algum conviva que não seja expulso; apenas divide a comunidade e mantém a praça em festa ocupada pelos mesmos donos do pedaço? Ao contrário, as duas festas na comunidade dão segurança e tranquilidade à festa na praça.

Se o outro grupo é filho gerado por nós, por que não aprendermos com a experiência, reconhecendo os nossos erros na sua criação e acolhendo-os como bons pais que devemos ser, em vez de renegá-los? Afinal, como pai e educador, aprendi que o comportamento das/os filhas/os é, a rigor, o boletim dos pais.

Graças a alguns comentários ainda em defesa da união dessa oposição ou unicidade de chapa, mesmo que votando em branco ou nulo, para evitarmos a responsabilidade sobre a repetição da derrota, ainda tenho a esperança de que esta mãe não se condene, dialeticamente, ao condenar o próprio filho que ela gerou!

Sem mais, para não alongar este textículo, agradeço a todas as pessoas pela participação me confiada, em nome de Neto Vale, que me convidou e me inseriu, e peço desculpas a todas por eu não ter me despedido antes. Até breve, pois isto não deve alterar nossa amizade!

E a luta continua!

Mossoró/RN, 09/12/2020.

(Prof. William Coelho-DFI/FAFIC)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Acerca de Palavras que Nutrem ou Envenenam

Em minhas redes sociais, como quem segura uma placa à margem do caminho ou entrega panfleto a quem passa, certa vez compartilhei uma postagem cuja ideia é a seguinte: "Se você comesse suas próprias palavras, elas nutririam sua alma ou a envenenariam?"

Um colega, então, respondeu-me como quem passa caminhando sem querer parar nem calar, dizendo apenas que a "reflexão é positivista. A palavra depende do contexto."

Perguntei-lhe, como quem acompanha o seu caminhar, se não é no contexto que também se nutre ou se envenena.

Ele respondeu, como se me apresentasse outra placa: "continua positivista".

Então insisti em acompanhá-lo no caminho, na pretensão de trazê-lo para a reflexão sobre o problema e lhe perguntei, privando-o da premissa - supondo que você esteja certo: o problema é o positivismo ou as consequências do uso da palavra?

Mas ainda fugindo do problema, como quem caminha sem parar pra pensar sobre o que ouviu ou leu, presumindo que sua opinião seja superior à panfletagem, ele apelou para o uso do argumento de autoridade e retrucou: "o problema é que você não está fazendo jus ao título acadêmico que você tem... Parece um sujeito de 'massa'."

Sob a intenção de fazê-lo perceber o problema e sua bifurcação em modos de discuti-lo, apelei, então, ao modo dele, como quem se interpõe à frente do caminhante para fazê-lo parar sem opção de fuga, e indaguei-lhe: como você faz jus ao seu título acadêmico, com respostas que escapam à investigação do problema? Não corresponde ao comportamento da "massa"? Se basta rotular [de positivista] para ser acadêmico, como fica a percepção do problema que realmente interessa?

Parece que isso não o fez parar, mas pausar ainda se esquivando, com um passo supostamente à esquerda, ao dizer: "agora, você está se aproximando da dialética", referindo-se à minha pergunta frontal sobre o título acadêmico e a investigação do problema. Mas, como que exibindo o panfleto ainda em sua mão, ele disse: "isso é postagem empirista".

E eu, me reportando à sua menção à dialética, retruquei-o dizendo que as perguntas são para fazer pensar e só pode pensar quem percebe o problema. Contudo, sobre o panfleto metaforicamente em sua mão contra o qual ele acusa de "postagem empirista", perguntei-lhe: Mas qual o problema nisso? Ater-se ao rótulo [de empirista ou positivista] não é ater-se à superfície do problema cujo frasco o rotulador nem abriu para analisar? 

Por um instante, enquanto ele se mantinha parado sem resposta, como a pensar nas imagens que lhe dei de "rótulo" e "superfície", retornei ao ponto da bifurcação nos modos de discutir, para mostrar-lhe que eu poderia seguir no caminho dele, se isso me interessasse, mas que eu ainda preferia que ele percebesse que havia outro caminho mais importante a percorrer. No entanto, para fazê-lo perceber como caminharíamos no pensamento dele, afirmei-lhe que, pelo prazer da discussão teórica, a pergunta seria: por que você diz que isso [a reflexão] é positivista?

Aparentemente, esta pergunta o fez, de fato, parar e pensar, visto que, depois de alguns minutos, ele admitiu que "isso é discussão para o tempo real", isto é, para fora das redes sociais, com o que concordei, pois, realmente, sem compreender o problema anunciado, haveria apenas desvio na rotulação de "positivista" ou "empirista", tal como o faz quem deprecia o mito por ser o discurso explicativo do senso comum sobre a realidade empírica, ou seja, o discurso do "sujeito de massa"; sem que o depreciador perceba, no entanto, as verdades subjacentes a esse tipo de discurso.

Entretanto, evitei que ele percebesse que sua resposta, como novo desvio, abria-me uma nova vereda, pois, se tal discussão só cabe em tempo real, fora das redes sociais, eu poderia perguntar-lhe por que, então, ele tentou levar-me por ela sem sequer analisar o problema anunciado na postagem?

Ouso pensar e arrisco dizer que fugir do problema, prático ou teórico, tal como a respeito do uso das palavras como nutrição ou veneno, pressupõe dois pensamentos assentados em uma sensação - a de insegurança: ou por se reconhecer ignorante sobre o problema e por preguiça ou despreparo no pensar, apela-se ao desvio no qual presume-se seguro; ou, por identificar-se com o problema e por medo de enfrentá-lo, logo apela-se para o desvio, acreditando-se mais seguro. 

Ora, racionalmente, quem ignora o problema mas quer conhecê-lo tende a questioná-lo para compreendê-lo; ou calar-se, supondo vergonha ao seu título acadêmico. Porém, quando o poder do título infla a presunção do ego, tende-se a desviar o caminho sem investigar o problema, o que, dependendo do uso das palavras, pode nutrir ou envenenar a alma.

Por outro lado, só se pode identificar-se com tal problema pensando dialeticamente sobre o movimento das palavras que, contrariamente, ao sair da boca, nutriria ou envenenaria a alma, porque, a rigor, antes de pronunciadas, elas foram, contextualmente, sentidas na afecção do corpo pelo ambiente e, por conseguinte, pensadas, supostamente, pela alma. 

A nutrição ou o envenenamento, portanto, não se dá após as palavras pronunciadas. Neste contexto, sua expressão é apenas sintoma da alma já afetada. A fala, infelizmente, apenas retroalimenta, nutrindo, como no ato de regurgitar, ou tentando envenenar os outros, como no ato de vomitar. Logo, a alimentação se deu já no pensamento, desde a afecção que o fez pensá-las. 

sábado, 20 de abril de 2019

Sobre a Dor e o Prazer da Profissão

Há quem diga que o mundo acadêmico está doente. Ou seria ele um mundo doentio?
Presumo, junto com a maioria, que o ambiente acadêmico deveria ser distinto dos demais ambientes de trabalho, uma vez que, por formação, estaríamos todos mais no âmbito da racionalidade do que no da sentimentalidade. Mas no que razão e sensação se distinguem se não pela totalidade e universalidade de uma e pela particularidade e singularidade da outra?
No entanto, a racionalidade acadêmica continua sendo instrumental, técnica, perdendo de vista a totalidade da vida humana como pessoal, profissional, social, econômica, artística. Ou seja, torná-la instrumental é deixar de usá-la para compreender e mudar a realidade, usando-a apenas para defender os interesses pessoais.
Isto é mais visível principalmente no serviço público. Pois tão logo se conquista a segurança de concursado, o sentimento privado se fortalece em detrimento da racionalidade pública: age-se como não se agiria numa instituição privada, na qual, ironicamente, o interesse privado é subjugado a outro interesse privado de outrem: o proprietário. 
Em instituição privada, porém, o sentimento de segurança é almejado pela relação de proximidade aos poderosos, causando submissão profissional e até pessoal. Curiosamente, a mesma mentalidade aparece também em instituição pública.
Então, criam-se discursos em defesa da instituição, pública ou privada, incoerentes com a própria ação de servidor público ou de profissional de nível superior. Aliás, "professor universitário" parece não se reconhecer como "servidor", pelo simples fato de ser um formador de profissionais de nível superior. Estranho, não?! Um poder conquistado para quê?
Eu suspeito que esta incoerência pragmática, isto é, esta discrepância entre o discurso e a prática é uma das causas de muitas doenças mentais, se já não for ela mesma uma doença, haja vista o esforço pela coerência também implicar em angústia ou depressão, se se tem que lutar sozinho, sem saber as causas e consequências dessa luta.
Esta discrepância teórico-prática parece comum a um tipo de mentalidade, isto é, a um uso mental dogmático, preso à busca ou manutenção de privilégios, em detrimento do senso de justiça; quer seja por identificar-se com a classe economicamente privilegiada, por identidade real ou imaginária; quer seja por identificar-se como indivíduo privilegiado intelectualmente, requisitando para si compensação material ou supervalorização do ego.
Não seria a falta de compreensão disso a geradora de conflitos pessoais e interpessoais? Ora, não sabermos lidar com os sentimentos advindos desse conflito parece nos colocar no cerne do problema: o conflito entre racionalidade e sentimentos. Pois daí resulta o desequilíbrio mental como adoecimento, cuja camuflagem faz adoecer o corpo.
Nessa perspectiva, não aprender a lidar com os nossos limites mentais talvez seja a causa do nosso adoecimento, o qual, por vezes, replicamos nos outros ou deles absorvemos, resultando em prazer ou dor. Mas por que alguns sentem prazer com isso, enquanto outros sentem dor?
Nietzsche diria: porque somos vontade de poder.
Mas, potência é tendência, diria Aristóteles.
E eu pergunto: se já sabemos qual a tendência, por que segui-la, se podemos mudá-la? 

quinta-feira, 24 de maio de 2018

PARA INTEGRAR AS HUMANIDADES

À comunidade FAFIC!
A Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da UERN é composta por cinco departamentos acadêmicos – DCSP, DECOM, DFI, DGE e DHI – com seus respectivos cursos: licenciaturas em Ciências Sociais, Filosofia, Geografia e História, além dos bacharelados em Ciências Sociais, em Comunicação Social, em Publicidade e Propaganda e em Jornalismo, e mais o Mestrado em Ciências Sociais e Humanas. Em seus documentos oficiais, desde os Projetos Pedagógicos dos Cursos, seguindo a legislação federal, todos se baseiam na indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. E todos falam em interdisciplinaridade. Mas, qual desses cursos consegue realizar essas ideias? Qual proporciona aos nossos alunos a percepção de totalidade universitária através de pesquisas dos nossos professores, que fundamentem o ensino e propiciem a extensão desse saber produzido pela FAFIC ou pela UERN? Qual consegue promover a interdisciplinaridade sozinho? Pesquisas têm mostrado que nas escolas, porém, ainda precisamos aprimorar esse papel como faculdade responsável pelos fundamentos humanistas.

Então, como proporcionar a realização dessas ideias fundamentais para a constituição de uma faculdade, se não for mediante uma gestão democrática e comprometida com a identidade epistemológica, ética e política das chamadas humanidades? Nesta perspectiva almejamos fortalecer todas as graduações que compõem a nossa faculdade e responder à demanda da sociedade acerca da formação de profissionais de nível superior voltados para a compreensão e atuação sobre os problemas humanos, sociais e políticos que afligem a nossa educação básica e superior.
Eis, pois, o objetivo desta candidatura para gerir a FAFIC, de 2018 a 2022: integrar as humanidades exercitando a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, pelo que precisamos fomentar não apenas a pesquisa, mas também valorizar a extensão, de modo a fortalecer o ensino, valorizando o serviço dos nossos professores e técnicos, prestado ao nosso público discente e à sociedade. 


Então, vamos à luta, por uma FAFIC humanamente integrada!


Eleições em 13/06/2018: quarta-feira.

domingo, 9 de julho de 2017

Sorria e Aprenda, que lhe há de ser BOM o DIA!



Diante de tanta notícia ruim, diariamente, cujo resultado é, geralmente, um adoecimento do humor e da percepção do real, cujo sintoma é o descrédito na Política e até na humanidade, decidi precaver-me disto acessando antes algo que me fizesse rir e compartilhando-o nos vários grupos e entre amigos numa lista de Bom Dia no meu whatsapp. No entanto, um amigo filósofo me questionou: 

De onde vem esse otimismo, que não condiz com o status quo do Brasil atual? 
Talvez venha da minha compreensão de que preciso usar minha força interior (sorrir e aprender) para me vacinar diariamente contra as más forças exteriores e não me entregar ao mau humor ou pessimismo que elas proporcionam.
O sorriso vacina, tal como a piada faz pensar, e o aprendizado torna bom o dia.

Esse otimismo não incorreria num solipsismo inócuo à solução dos problemas objetivos do mundo real? 

Ora, se a questão se reduzir a deixar para os outros encararem a solução dos problemas do mundo intersubjetivo, de fato, isto não pode ser salutar à sociedade.
Mas a questão pode ser: COMO encarar os problemas do mundo intersubjetivo?
E a proposta é: vacinando-se com o sorriso antes de enfrentar as más notícias cotidianas. Pois, a depender delas, certamente, não há como se ter um bom dia.
Para isto, então, é preciso que se aprenda todo dia, a começar com a perspectiva do humor sobre a realidade. E, necessariamente, também com as tristes notícias cotidianas, para se superar a cada dia.
Assim, a solução não é deixada para os outros. Ela ainda está sendo buscada no aprendizado de cada dia com, para, e apesar dos outros.

Se isso tem sentido, então o que é "ter sentido"? Questionou-me uma amiga.

A rigor, a pergunta pelo "sentido" é, para mim, a pergunta verdadeiramente filosófica. Penso que "ter sentido", "fazer sentido" ou "dar sentido" é, em primeira instância, atribuir valor de verdade a um discurso que conforma, que justifica ou se ajusta à prática que preferimos adotar. Em última instância, consiste numa perspectiva pela qual se fundamenta uma prática sem nos arriscarmos a perder o sentido da vida, sem o qual a renegamos ou nos entregamos à barbárie ou à loucura, o que seria o mesmo.

E desde quando o discurso que conforta o subjetivo eu, deixando a solução dos problemas do mundo intersubjetivo para os outros encararem, é salutar à sociedade e aos homens outros? Redarguiu-me o filósofo.
Vale pensar que o discurso que conforta o sujeito é salutar à sociedade desde quando ele se realiza numa ação universalizável. Isto é, desde quando ele não mata o sujeito nem o isola da sociedade.
Atribuir valor de verdade ao sorriso e ao aprendizado cotidianos como condição para tornar bom o dia gera uma ideia universalizável que se realiza na condição de rir e pensar e fazer o outro rir e pensar a partir do risível, na busca de solução com e para os outros, apesar do "status quo do Brasil atual..." Afinal, que sentido tem tentar mudar os outros se não consigo mudar a mim mesmo?

E o que é o sentido da vida? Insistiu nossa amiga.


Teoricamente, seguindo o mesmo raciocínio, eu diria que "o sentido da vida" é o valor de verdade que atribuímos ao nosso modo de viver.                  
A consequência disso é um problema prático, que se dá quando não conseguimos mais com a nossa prática corroborar o valor de verdade atribuído ao discurso que a sustenta. Então, precisamos mudar de prática para dar consistência ao discurso ou mudar o discurso para sustentar a prática. E se não conseguimos isto, qual a consequência?
Parece que nisto consiste a verdade da expressão: a verdade doi. Doi quando a razão reconhece a necessidade lógica de mudar a prática de vida, porque esta já não se sustenta no discurso. 

Quero dizer: considera-se como verdadeiro aquilo que corresponde ao seu modo de viver, sem admitir que tal "verdade" diz respeito apenas a uma parte do discurso que se pretende universal; exatamente aquela parte que interessa para corroborar o modo de vida escolhido, de maneira que a generalização do discurso feita a partir da tal perspectiva não pode ser universalizada, tampouco o modo de vida correspondente.
Por isso, vale pensar para aprender a cada dia. Mas também vale sorrir para não adoecer ...

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

BOM DIA, FUTURO!!!


Hoje marcamos uma nova etapa na nossa história profissional de intelectual ou de estudante da UERN. Seu novo futuro começa em todos nós com coragem para mudar.
Sorria e aprenda, que o futuro se gesta na luta diária.
Então, vamos à luta, pois a vitória só depende de nós para que o futuro nos seja bom!

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Espelho de Desejos e Esperança

Mais um ano se vai
E com ele a ilusão do irrealizável:
A frustração dos nossos sonhos egoístas
Que só alimentam o desejo individual de superar os outros
Então, no ano que chega, renove-se!

Renovemo-nos!
Na esperança de nos superarmos
Ao sonharmos juntos o realizável:
Multipliquemos o desejo que realiza a outrem
Como a mim mesmo!
Pois se realiza com o outro
Porque eu sou o Outro

Assim, tudo o que me desejares retornar-te-á em dobro
Como a imagem refletida no espelho que sou
Cuida-me e ela resplandecerá
Descuida-me e ela turvará
Como os teus sonhos egoístas se esvaem

Porque o Outro está em Mim
Em ti, em nós, como desejo
Tal como nele estou
Estás, estamos, como Potência do Ser
Que se realiza na comunhão dos nossos atos

O que seria da Potência sem o Ato?
Atualizemos, pois, nossos desejos em vista do Outro!

Para nos superarmos
Comecemos em nós a mudança que precisamos fazer no outro!
Sorria e aprenda a cada dia, que o novo ano haverá de ser melhor
Em nós
E para o Outro!


Beijos de Feliz 2017!!!

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

DA ADOLESCÊNCIA PARA A EMANCIPAÇÃO DA UERN

Eu sou UERN... desde 1988.  Do segundo concurso da recém-estadualizada Universidade do Estado do Rio Grande do Norte: graças à luta histórica de Professores e Alunos da então URRN – Universidade Regional do RN. Luta que envolveu diversos representantes da região Oeste potiguar: desde a Igreja – católicos e evangélicos –, até da Maçonaria, de Sindicatos e do empresariado, através do CDL. Luta social que sensibilizou o intelecto do então governador Radir Pereira (14/05/1986-15/03/1987, outrora vice-governador, substituindo José Agripino/1983-86). 

Certamente essa foi a maior de todas as lutas: consistiu em dar nova perspectiva de futuro a um dos estados mais pobres e atrasados do Nordeste do Brasil. Transformou-se em estadual o que era apenas municipal (de Mossoró, e regional: do Vale do Assu ao Alto Oeste potiguar). A jovem UERN, então, encarregou-se de formar centenas de jovens que não tinham condição de estudar na capital. Ela nasceu no interior (Lei 20/68-CMM) e se expandiu pelo Estado[1], dando voz e vez ao jovem interiorano e até lhe proporcionando o sonho do curso superior, da ascensão e da mudança socioeconômica.
Atualmente, a grande maioria dos nossos egressos está na Rede Pública de Ensino. Como o Estado teria profissionalizado tantos professores do Ensino Básico, sem a interiorização da UERN? Cerca de 93% dos Professores municipais de Mossoró são oriundos da nossa Instituição de Ensino Superior, assim como em Assu, Patu e Pau dos Ferros. Outros tantos estão em repartições públicas no interior do Estado. Outros se tornaram profissionais liberais: advogados, médicos, odontólogos, cientistas da computação, contadores, administradores do próprio negócio... todos contribuindo para a movimentação da economia local.
Alguns foram desbravar o Serviço Público em outros estados do Norte: Assistentes Sociais, Enfermeiros, Pedagogos, Cientistas Sociais etc. Outros até já fazem parte da elite do Serviço Público no Nordeste: alguns juízes, promotores e até reitor da Universidade Estadual de Alagoas. Em que situação estaria o RN se não existisse a UERN cumprindo esse papel fundamental de formadora de profissionais no interior do Estado? 
É fato que desde o seu nascimento (28/09/1968) a UERN cresceu e apareceu: em números, em extensão, em patrimônio físico e pessoal. Mas, será que ela amadureceu nos últimos 30 anos? Por que ainda precisamos defendê-la em audiência pública na Assembleia Legislativa do Estado, contra um insano alarde de privatização? Por que o governo de um Estado pobre como o RN cria Curso de Gestão Pública fora da sua Universidade? Por que a Escola de Governo não está dentro da própria Universidade estadual? Não teríamos competência para isso?

Apesar dos funestos interesses da elite política retrógrada do nosso Estado, não seria interessante se pensar a nossa Universidade – não como mera repartição pública encarregada do Ensino Superior, mas, por ser formadora de profissionais de nível superior – como uma IES cujo papel deve consistir em pensar e mudar a realidade pelo menos do município de cada campus, estendendo à região circunvizinha e, por conseguinte, do nosso Estado? A missão precípua da nossa Universidade não consistiria em servir de modelo de gestão do Serviço Público? E em que isto consiste se não no fato de Servir ao Público? Ou seja, promover o Serviço Público de modo diferenciado, em resposta às críticas pertinentes a toda prestação de serviço; em nosso caso, servir à sociedade potiguar, mediante a produção e democratização do conhecimento, que gere riqueza social, fortalecendo e remodelando a identidade cultural local sob a universalidade humanista. 
E do que precisamos para tanto? De pessoas que, de fato, pensam e lutam por uma UERN diferente dessa adolescente balzaquiana (quase 30 anos de estadualização)[2]. Pessoas que vislumbrem uma Universidade madura, autônoma financeiramente e politicamente democrática; capaz de decidir e gerir seus rumos entre os seus pares: Professores, Técnicos e Estudantes; aberta à sociedade para pensar seus problemas e antecipar-se com as soluções. Pessoas que não se sintam elite pelo título universitário nem pelo salário; mas que se tornem tal pelo reconhecimento da sociedade à contribuição pelo seu serviço prestado. Eis o patrimônio imaterial que a UERN tem construído e precisa amadurecer para o desenvolvimento social da região e do Estado.

Precisamos de uma mentalidade nova, mas com bastante experiência sobre a adolescente UERN: pessoas com visão histórica e crítica, coragem e vontade de construir agora o novo futuro da nossa Universidade. Capazes de pensar e implementar ações que congreguem a comunidade universitária em torno do seu fim último: prover conhecimento a serviço da sociedade potiguar. Isto exige desprendimento de privilégios vãos; esforço coletivo, maturidade e responsabilidade com a coisa [res] pública, para gerir o patrimônio público em vista do desenvolvimento social. 
Está provado que isto não se faz por conivência ou apadrinhamento político partidário, como quem dirige uma prefeitura à moda da política tradicional. É preciso coragem para amadurecer e criar uma nova tradição. É necessário maturidade para emancipar-se. Emancipação é uma conquista de quem busca a liberdade; é a responsável pela saída da adolescência. Sem a autonomia de gestão financeira a UERN continuará a mercê de interesses esconsos.  
Somente a autonomia financeira da nossa Universidade, sob uma gestão responsável, livre e democraticamente transparente, pode nos dar a todos – Professores, Técnicos, Estudantes e Sociedade – a dignidade e a valorização que a comunidade uerniana merece.





[1] Sua expansão ocorreu durante a sua infância (1968-87), criando-se o campus de Assu (1974), o de Pau dos Ferros (1977), e o de Patu (1980). Durante a sua adolescência (1987-2017) criaram-se o campus de Natal e o de Caicó, em 2002, além do Núcleo Avançado de Educação Superior, em Macau, e mais 10 Núcleos até 2005.
[2] Pela Lei nº 5.546/87-ALRN, em 08/01/1987, encerrou-se sua infância de 18 anos. Reconhecida pelo MEC em 1993 (Portaria nº 874/93), esta adolescente de 48 anos ainda reclama a sua emancipação, por uma Lei de Autonomia, desde a Assembleia Estatuinte da UERN, em 2010. 

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

DA SAUDADE À ESPERANÇA

(PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DO AMOR)
Ao lembrar o tempo da saudade das minhas filhas crescendo, relembrei o banquinho que projetei no jardim, como lugar de namoro que elas nem perceberam e que meu pai estranhou porque, à época, a minha princesa só tinha dois aninhos. Então, antecipando-me à saudade do que eu ainda não vivera, pensei na que eu reviveria quando minhas filhas assumissem suas vidas e eu desejasse netos. Mas não era saudade. Era esperança. E, enfim, ela chegou: esperança misturada à saudade renovando o amor.
Saudade das filhas crianças revivida na neta que realiza a esperança. 
Esperança de corrigir com as filhas na educação da neta as falhas da educação delas. 
Mas, como? Já nem tenho mais tal direito. Embora ainda tenha o dever de guiar minha filha na criação da minha neta. O dever, contudo, não é uma obrigação, pois não é um imperativo legal nem físico. É apenas uma responsabilidade derivada da consciência de que filha e neta carecem de cuidados. O direito, porém, é uma conquista ou uma concessão, tal como o amor é conquistado ou concedido. 
Costuma-se perguntar se o amor pelos netos é duplicado. Respondo que não. Pois não sei calcular o amor. Apenas sinto-o renovado: o amor à filha se renova com a neta, conforme a convivência. E não o concebo sem isto: participação. Nele há concessão e conquista.
O amor aspira cuidado: carece-lhe e almeja-o para se concretizar. O cuidado inspira o amor: concretiza-o e o renova. Não concebo o amor sem cuidado. Mas somente este pode ser medido, uma vez que é concreto, como atividade pela qual aquele se manifesta. Ele, portanto, pode ser duplo, ou triplo ou calculado no tempo, no espaço, num indivíduo, sob determinadas circuntâncias. Isso, talvez, seja o que confunde as pessoas, induzindo-as a falar que "amor a neto é dobrado".
Não. Dobrado é o cuidado, porque há mais a participar com a filha e também com a neta; há mais a tornar-se parte delas como amadas e delas em mim como amante. O amor, no entanto, é apenas renovado, ou seja, revitalizado pela graça de ser reconhecido e aceito: valorizado, pela conquista e pela concessão. 
Que amor resiste ao descuido? Se não concedido, como ser conquistado? Não é o tempo que mata ou alimenta o amor: mas o descuido ou o cuidado. Se o ser amado não cuida do amor recebido, este perecerá: deixando só saudade de um tempo perdido. Se o amante descuida do ser amado, este não o reconhecerá, porque o critério do amor é o cuidado. E qual o critério do cuidado? Como saber que há descuido ou excessivo zelo pelo outro, o que desvirtua ou perverte o amor? Talvez seja a concessão sem conquista, tal como o direito não conquistado desvirtua ou perverte a liberdade, assim como os privilégios herdados desvirtuam as pessoas e, quando perdidos, perverte-as.
Eis que surge um dilema lógico entre conquista e concessão; entre amor e cuidado. E desconfio que se há dilema é porque a relação não é lógica, mas dialética, cuja superação exige um terceiro elemento. 
Como superar a dialética entre o amor e o cuidado, que se completam como ato e potência, mas não são a mesma coisa? 
O que é o cuidado se não a realização do amor? O que é o amor se não o desejo de cuidar do outro? Como medir o cuidado para que ele não desvirtue ou perverta o amor? Se o cuidado é o critério do amor, qual o critério do cuidado se não o respeito? Como é possível conquistar o amor do outro sem o respeitar? Por que não se valoriza o amor recebido ou doado em demasia, se não devido à falta de respeito para com o outro ou para consigo mesmo? 
Mas, o que é o respeito se não o reconhecimento do valor do outro? E em que consiste o valor do Outro se não no fato de que ele não é um objeto de posse, mas um sujeito de desejos e de liberdade, embora limitada, capaz de decidir conquistar direitos e doar-se em dever, se conquistado? E como conquistá-lo se não pelo cuidado e pelo respeito, pelos quais se reconhecerá a dimensão do amor?  
Eis o aprendizado que espero vivenciar com minha neta, para que o amor se renove nela, pela saudade do que vivemos - eu com meus pais e, depois, com minhas filhas e com ela -, e pela esperança do que elas hão de viver se renovando em gerações.