quarta-feira, 29 de maio de 2013

Carta de um Pai Ateu à sua Filha no EJC


Minha mais amada filha mais nova!

Ainda me lembro da sua primeira noite de pijamas, quando as professoras do Geozinho nos pediram para escrever cartinhas para você, que seriam lidas durante a noite. Certamente uma professora é que as leria para você, na turma. Então pedi pra sua mãe e sua irmã lhe escreverem alguma coisa. E eu lhe escrevi várias. 
Curiosamente, enquanto sua mãe temia por você em sua primeira noite fora de casa, eu acreditava que seria a sua primeira grande noite de independência: como um corte do cordão umbilical na infância. Mas fiquei ansioso para vê-la na manhã seguinte, como você estaria após tal experiência de vida.
E confesso que fiquei maravilhado com sua narrativa de que aproveitou tudo, exceto assistir a filme, só pra não sentir sono. Tanto que ao chegar em casa, só fez tomar o seu “gagau” e adormecer na sala mesmo, de tão cansadinha que estava. Pois soube aproveitar muito bem.
Aquela experiência, pra mim, foi um marco na sua educação como pessoa e como futura mulher independente. Pois, foi assim que sempre pensei a educação das minhas meninas. Como tenho dito, eu sempre quis ser pai; e pai de meninas, pelo desafio de criá-las diferentemente nessa sociedade machista. Por isso eu sou um homem realizado como pai de duas meninas lindas, graças a sua mãe, e reconhecidamente bem educadas. Fico orgulhosamente feliz quando me falam da beleza das minhas meninas (e se não falam, falo eu), mas principalmente da educação, da qual seria injustiça negarem-me crédito.
Tenho primado pelo princípio da justiça, do respeito e da liberdade, como valores fundamentais de toda educação que vise formar pessoas livres e razoáveis, dignas do bem viver em sociedade. Pelo princípio da justiça tento lhes incutir a capacidade de julgar entre o certo e o errado, não por norma, mas pelo exercício do bom senso para evitar impingir a si ou a outrem o mal de um sofrimento desnecessário ou de um prazer inconsequente. Basta que não atrapalhe, “para que todos tenham vida, e vida em abundância” (Jo. 10; 10).
Pelo princípio do respeito consideramos sempre que o(s) Outro(s) tem algum valor como pessoa, como ser humano, ser vivo, animal ou vegetal, ou valor pela parte que lhe cabe na relação com o ambiente. Por isso não merecem condenação só por serem diferentes de nós, ou porque suas crenças não se assemelham às nossas; nem seus atos que em nada ferem, exceto ao nosso preconceito. Principalmente se agem pela involuntariedade da ignorância, carecendo de educação ou de "perdão, porque não sabem o que fazem” (Lc. 23, 34). Aliás, como diz Gilberto Gil, “não há o que perdoar, por isso mesmo é que há de haver mais compaixão” (Drão). 
Para tais princípios a liberdade tem sido o fundamento. Pois, sem ela não se aprende justiça nem respeito. Sem ela não haveria a descoberta do Outro, do diferente. Sem ela não haveria a responsabilidade pelas consequências na relação com o Outro, como condição de sua própria independência. Contudo, ela se dá pelo reconhecimento dos seus próprios limites, das suas próprias necessidades.
Por isso tenho evitado lhes dizer o que vocês devem fazer, a menos que eu considere isso realmente necessário. Sei que às vezes isso pode lhes angustiar. Mas sei também que vocês superam. E estou atento. Pois é isto o que me importa: que vocês superem seus próprios limites, para saberem respeitar os limites alheios e aprenderem a corrigir ou conviver com as falhas dos que não aprenderam a viver como vocês.
Em nome da liberdade, da justiça e do respeito tenho evitado lhe dizer qual curso ou profissão você deve seguir, tampouco me pronunciar sobre suas amizades, namoros, festas ou crenças, a menos que me consulte ou que eu julgue que estão segregando-a ao invés de congregando-a. Por outro lado, lembro sempre as duas condições para a mulher ser independente nessa sociedade: trabalhar e saber dirigir. Por isso a carteira de motorista foi seu presente dos 18 anos, uma vez que você ainda não trabalha. O resto, porém, cabe a você.
Então, que você saiba aproveitar mais essa experiência em sua vida, com liberdade, justiça e respeito! E ciente de que eu te amo! ...E muuuuuuuuuuuito!
Beijos mil de bom final de semana, para minha Princesinha e para sua galera do EJC!

Mossoró, RN, 17 (25) de maio de 2013.

Um comentário:

Anônimo disse...

Princípios de justiça, respeito e liberdade, fundamentados no AMOR!
A educação dos nossos, como “formadores” de seres, ou no que podemos contribuir, é o que nos elege como pais. Diante do que acreditamos, entendendo que aquele que temos como filho/filha é um Outro, e que para ser necessita de liberdade. Essa carta de um Pai Ateu nos faz refletir essa questão primordial, não no sentido de ordem, mas de continuidade fundante para a realização do AMOR de pais. Parabéns pela carta, pela filha e obrigada pela partilha do aprendizado!

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