segunda-feira, 11 de julho de 2016

A JUAN BONACCINI: POR UMA ATITUDE DE JUSTIÇA INTELECTUAL

Permitam-me apresentar-lhes um episódio particular que ilustra o caráter do intelectual acadêmico que conheci na pessoa do argentino Juan Bonaccini.

Para minha sorte, em 2006, na seleção do Doutorado em Filosofia (UFPB-UFPE-UFRN), Juan Bonaccini estava entre os nove examinadores. O canadense André Leclerc (UFPB) presidia a Banca. Após alguns comentários sobre a minha prova escrita e minha proficiência em Inglês, Leclerc perguntou-me quem seria o meu Orientador, para então discutirmos sobre o meu projeto de pesquisa acerca da Linguagem das Paixões em Aristóteles.
Eu lhe respondi que tinha uma carta de aceite do Prof. Gabriel Trindade, platonista e tradutor português da Universidade de Lisboa, recém-chegado da UnB para a UFPB. Ao que, prontamente, aquele em quem eu esperava apoiar-me negou-me perante os julgadores, alegando não ter aceitado orientar-me sobre tal projeto.
Enquanto ele falava eu busquei a carta-resposta na minha pasta de documentação. No entanto, eu não queria desviar para o âmbito particular da carta a discussão acadêmica do projeto. Contudo, eu também não queria esquecer de a ler ao término da discussão filosófica.
Para minha grata surpresa, quando o renomado professor concluiu sua intervenção, o argentino Juan Bonaccini pegou cópia da carta, dentre os seus documentos, e disse: "Professor, desculpe, mas não é bem isto o que diz a sua carta!". E leu-a para todos ouvirem. Isto foi, para mim, uma atitude de justiça intelectual jamais presenciada.
Espero que o meu amigo Jorge Soares se lembre do conteúdo da carta ou do seu comentário a respeito. Pois foi ele a primeira pessoa com quem a compartilhei. E lembro-me que ao lê-la, Jorge me surpreendeu com a sua generosidade, dizendo: "Esse cara quer aprender Aristóteles com você". Entenda-se: ... a ler como você. Isto porque a carta-resposta dizia algo como: ...este não é o modo como leio Aristóteles, mas terei imenso interesse em orientá-lo.
Felizmente, eu agradeci a Juan pela sua atitude honrosa e surpreendentemente pedagógica, quando nos encontramos, creio que no Simpósio Internacional de Metafísica, em Natal, ou numa Semana de Filosofia, em Caicó. Pois essa atitude ficou-me como a boa e feliz lembrança que tenho dele como exemplo de filósofo acadêmico capaz de enfrentar os seus pares, em defesa de um mero candidato com quem ainda não tinha amizade, para evitar uma injustiça intelectual.
Então, que o exemplo sirva de lição a todos nós: pensem a Ética e ajam eticamente! Pois, infelizmente, o filósofo argentino Juan Bonaccini, Professor do Departamento de Filosofia da UPFE, faleceu em Recife neste domingo 10 de Julho, vítima de câncer. 
Resta-nos o consolo na crença de que a sua dor cessou.
Amem e amém!

5 comentários:

Anônimo disse...

Eis o Professor Juan.

Willians Moreira Damasceno disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Willians Moreira Damasceno disse...

Sempre tive e tenho a alegria de ter sido aluno do prof. Juan. Ficou o exemplo do filósofo digno de ser honrado.

Willians Moreira Damasceno disse...

Sempre tive e tenho a alegria de ter sido aluno do prof. Juan. Ficou o exemplo do filósofo digno de ser honrado.

Willians Moreira Damasceno disse...

Prof. Juan foi meu professor na graduação em filosofia, orientador de minha monografia e seria meu orientador no mesmtrado. Homem que deixou o exemplo de acadêmico que merecia toda a minha admiração. Sempre tive e tenho a alegria de ter sido aluno de homem.

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