sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Lições Para Uma Droga de Vida



Certa vez eu vi D. Hélder Câmara, então arcebispo de Recife, dizer: "o jovem se droga porque acha a vida uma droga". E fiquei a pensar na beleza e na sabedoria daquelas palavras. Apesar daquela beleza, contudo, eu ainda me perguntava: mas, o que é uma droga? Pois, o sentido corriqueiro de que "a vida é uma droga" eu até entendera, de tanto ouvir falarem, geralmente quando não se conseguia alcançar algo desejado: ISSO É UMA DROGA!. Entretanto, se a droga expressava algo tão ruim quanto a insatisfação de um desejo, como alguém poderia buscar nela uma satisfação? Que tipo de satisfação? Ou, em que sentido ela era tão ruim? Isto, realmente, eu ainda não entendia. Parecia haver uma contradição ali. 
Eu confesso que até desejei experimentar alguma droga, a fim de compreender o que ela causava. Mas, felizmente, eu não achava a vida uma droga. Por isso, preferi aprender observando o que acontecia com os outros. Certamente eu não tinha desejos insatisfeitos. Embora fôssemos pobres, eu tinha pai e mãe e cinco irmãos com quem brincar. Tinha amigos com quem conversar e me divertir, tanto no bairro quanto na escola, embora alguns deles usassem droga. Tinha parentes que demonstravam afeto e respeito por mim. Meu pai, aliás, apesar de fumar, não o fazia em nossa presença nem aceitava sequer que manuseássemos cigarro. Até parecia uma arma de fogo, cujo perigo exigia sempre o cuidado de um adulto. 
Felizmente, meu pai não bebia alcoólicas. Lembro-me que eu achava ridículo pessoas embriagadas. Eu até considerava o mal do fumante menor do que o do alcoólatra, devido à embriaguez. Certamente, porque eu não via meu pai cometer qualquer mal por causa do cigarro, como via outras pessoas o fazerem devido ao álcool. Mas eu nem percebia que isso também era um tipo de droga. Infelizmente, meu pai já se drogava, embora respeitasse a nossa presença. Sem que percebêssemos, ele já era viciado, apesar do seu vício não afetar a ninguém, exceto a si próprio.
Não obstante o fato de ele fumar e termos amigos que já fumavam, nenhum de nós quatro irmãos nos iniciamos no vício; nem as mulheres, claro! Certamente devido à nossa mãe, que não aceitava tal atitude. E creio até que era ela que impunha a nosso pai o respeito de não fumar na nossa presença, para não dar mau exemplo. Tais amigos, porém, posteriormente viciaram-se em outras drogas que os levaram à morte.

Lições de Valor

Minha mãe era forte na nossa educação, mesmo quando chorava por raiva ou medo de nos desviarmos dos seus valores. E nem eram tantos, mas eram sábios. Eu detestava desapontá-la, vê-la triste ou com raiva. Assim, aprendi que não devemos fazer sofrer a quem amamos.
Ela era semi-analfabeta, mas cuidou para que estudássemos. Ela nos ensinou o que não se ensina na escola nem nas ruas. Na escola aprendemos a calcular, falar e escrever corretamente e discutir sobre o mundo teórico das coisas da vida. Nas ruas aprendemos coisas sobre a vida prática: a amizade, a violência, auto-defesa, aventura e sobrevivência, inclusive sobre as drogas da vida. 
Felizmente, como meu pai provia a nossa sobrevivência, minha mãe providenciava nossa vivência nos ensinando respeito ao Outro: não importando se era ao irmão, amigo ou desconhecido. Por isso, embora brigássemos na rua, nós sabíamos que ela não devia saber. Pois, diferentemente de outras mães que ameaçavam bater no filho se ele apanhasse na rua, mamãe alertava: "se brigar na rua e apanhar, quando chegar em casa apanha novamente; e se bater, também apanha". O pressuposto era:  eu não quero é que briguem. Assim, ela nos ensinou a dignidade, o respeito a nós mesmos, de cada qual por si próprio.
Eu admirava como minha mãe conseguia respeitar o gosto de cada um de nós, mesmo sem a condição material para satisfazer o gosto de todos. Lembro-me como ela providenciava alimento diferente para aquele de nós que não gostava da refeição do dia. E sua justificativa era simples, para que os outros não ousassem querer o que era do outro: ele não gosta do que vocês gostam. E não adiantava reclamar, porque sabíamos que o seu senso de justiça valia para todos e para cada um. Então, nós aprendemos a nem desejar o que é do outro.
Pela alimentação, também, ela nos ensinou outro valor simples, do qual não abria mão e dizia ter aprendido com o seu pai: todos à mesa para as refeições junto com o pai. Lembro-me, inclusive, de como todos permanecíamos à mesa, após o jantar, ouvindo rádio; ...depois televisão mudou isso, mas, graças a esse convívio, já estávamos preparados para sair de casa à noite para estudar, brincar ou namorar.
Num certo período, meu pai trabalhava o dia inteiro e ainda estudava à noite, mas compartilhava conosco algum tempo do final de semana: levando-nos ao seu local de trabalho, ou para assistir jogo de futebol ou para jogarmos com seus amigos ou ele conosco e nossos amigos, na praia. Eu adorava perceber a admiração que nossos colegas e os dele tinham pelo meu pai jogar entre nós. Além disso, às vezes ele nos levava para visitar nossos parentes na zona rural. E lá era a vez de ele nos ensinar o respeito aos outros, inclusive aos animais, assim como o auxílio aos mais necessitados. Eu me orgulhava disso! 

A Droga da Carência e a Carência da Droga

De fato, nossa vida não era uma droga! Nós não tínhamos desejos insatisfeitos. Nós aprendemos a não desejar coisas que não satisfaziam, que só faziam bem a nós próprios, num prazer individual, subjetivo e egoísta. Afinal, nós tínhamos sempre alguém com quem compartilhar nossa dor ou nosso prazer. Nesses termos, parece que o sábio D. Hélder tinha razão, pois nós aprendemos a não sentir a droga da carência.
No entanto, vale lembrar que, tecnicamente, alguns organismos têm mais resistência ao vício do que outros, a certas drogas. Por exemplo: alguém pode embriagar-se com uma única dose, enquanto outro bebe dez para o mesmo efeito. Além disso, a droga não pode ser pensada simplesmente com referência àquelas ilícitas pelas quais se cometem crimes. Pois, embora elas causem algum prazer, o que há de comum entre elas e a droga da vida é o desprazer ao cessar seu efeito: a dor de frustrar o desejo, a qual gera o vício em busca do prazer prometido. E o vício é a necessidade do fútil; daquilo cujo bem é cada vez menor quanto maior é a carência.
Em outras palavras, o bem ou prazer torna-se tão virtual quanto mais real é a dor ou necessidade. Por isso o vício faz tanto mal, independentemente de qual seja a droga: fumo, álcool, pó, pedra, remédio, tóxico, que adentram o corpo pelas vias respiratórias ou venosas; tanto quanto aquelas de aluguel que acessam a mente pela visão ou pelos ouvidos ou pelo corpo inteiro, como TV, DVD, videogame, internet, fofocas, jogos de azar, música fútil e até sexo de orgasmo duvidoso ou qualquer outra coisa cujo prazer é injustificável, por ser virtual, egoísta ou exagerado. 
Por isso, penso eu, que se o domínio do prazer e da dor não for aprendido desde a infância, na relação de respeito humano entre pais e filhos, amigos, adultos e crianças, através da satisfação afetiva e mútua, infelizmente, estar-se-á criando uma carência pessoal, cuja satisfação tenderá à virtualidade, para quem a vida se tornará realmente uma droga.

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