sexta-feira, 9 de setembro de 2011

BENDITO SEJA


Vocábulo muito dito, desgastado sentido. Isso bem poderia ser um provérbio a se observar.
Já perceberam como as pessoas comuns, ou cristão vulgar, dão graças a Deus por tudo? E como elas abençoam ou pedem a bênção à autoridade parental ou semelhante?
Antigamente se dizia: "sua bênção, meu pai!" ou "sua bênção, minha mãe! ...meu avô! ...vó! ...tio! ...tia! ...padrinho! ou ...madrinha!". Pelo menos deve ter sido assim que fora ensinado pela doutrina católica, rogando uma graça a quem, porventura, pode interceder divinamente: "sua bênção, padre!". Mas qual a autoridade do intercessor? Quem concede tal autoridade a um padre pedófilo, por exemplo? Ou a uma mãe má ou um mau pai, tio ou avô, estuprador, assassino, bandido? Que poder de acesso ao divino tem alguém desse tipo, mais do que uma criança inocente?
Sabe-se, como diz o grande helenista Professor Henrique Murachco, que a preguiça de falar faz a economia das palavras, mudando-as desde benedicto [latim] para Benedito, bendito, Bento, todas significando a mesma coisa: aquele agraciado pelo bem-dizer [benedictione]; daí benzer, resultando geralmente em "bença, pai; bença, mãe!" até se transfigurar em um sonho de consumo dos mais caros do mercado automobilístico: "benz, pai; benz mãe!" (...Mercedes... em latim significa dar graças; mercê: favorecer, beneficiar). Mas, que sentido ainda é guardado nessa prática senão a força da tradição? Certamente por causa disso ela vai se perdendo. Pois, se não há sentido, por que praticá-la?
Do mesmo modo ocorre com o discurso da autoridade de quem abençoa. Minha mãe sempre disse apenas "Deus te abençoe!". Por tanta repetição isto soa como: "Deustabençoe", "Deustambemsois", quiçá "Deunstabefões".
Meu pai, porém, costuma dizer "Deus te faça feliz!". Sempre achei bonito este ato de fala. Talvez porque as palavras escolhidas obriguem o pronunciamento correto, não permitindo destoar. No máximo soaria como "Deus te faz feliz!". Além disso, para mim, parecem realmente expressar um desejo enorme de ver a felicidade dos filhos, sobrinhos e afilhados ou netos devidamente entregues a Deus. 
Felicidade não é dom divino; é compromisso humano
Com a frase escrita, então, o ato se torna mais belo, pois sua inscrição se transforma em espelho, universalizável: inscrito não para si, mas para o Outro, pela leitura deste o ato reflete seu poder a quem o inscreveu. Quer dizer: o efeito é remetido para a coisa onde ele está inscrito, como num carro, por exemplo, ou para quem quer que lhe esteja relacionado: dono, motorista etc... Diferentemente de “Deus é fiel”, “Guiado por Deus” ou “Propriedade de Jesus”: discursos vazios que só falam do medo de quem os inscreve.
Claro que, apesar da beleza daquele discurso, ele resulta em outro problema, pois pressupõe que a felicidade seja um dom divino. Ora, isto seria um absurdo! Afinal, como poderia Deus escolher quem será feliz e quem não?! Que injustiça seria condenar alguém à infelicidade já desde o nascimento?! Por isto, em verdade vos digo: felicidade só pode ser um compromisso humano. E muitos deficientes dão prova disso.
Não sei com quem meu pai aprendeu a benzer deste modo, uma vez que minha avó paterna dizia, geralmente: "Deus te dê juízo!". Seria muito bom se ela fosse kantiana, pois, certamente estaria dizendo "Deus te dê discernimento!". A minha dúvida é se esse tal juízo, para ela, correspondia tão-somente a um aprimoramento da capacidade de julgar, ou seja, à sensatez, ou simplesmente ela queria mesmo era dizer que me achava um sem-juízo, isto é, meio maluco. Realmente não sei. 
Meu avô materno também se pronunciava com singularidade. Ele dizia: "Deus te dê boa fortuna!". Apesar de não ser ele um leitor de Maquiavel, eu acredito que o sentido estava mais para "boa sorte", do que mesmo para acúmulo de riqueza, como seria comum acreditar. Isto porque ele me parecia alguém tão sublime, que a riqueza material certamente lhe aparentava supérflua.
Só sei que, de qualquer modo, o pressuposto de todos esses discursos ou atos de fala é que, materialmente, pede-se para os descendentes aquilo que eles não tem ou o que se acredita ser melhor para eles. O legal é que minha irmã parece resumir tudo isso, dizendo: “Que Deus continue te abençoando ricamente!”... Agora, vai dizer isso para um desgraçado!
Metafisicamente, no entanto, pedir ou dar a bênção, isto é, benzer ou bem-dizer pressupõe valer-se da crença de que a palavra tem força, poder: de súplica, de concessão, de transformação. Tanto é que na sabedoria popular algumas pessoas ainda se recusam a pronunciar determinadas palavras como "câncer", substituindo-a por "CA", nome do exame usado para diagnosticar o tumor; ou mesmo por "a doença maldita" [mal dita], ou simplesmente por "aquela doença".
Outras pessoas jamais ousam pronunciar o nome "diabo", substituindo-o por vários outros como: "o capeta", "o demo", "o tinhoso", "maligno", “maldito”, "coisa-ruim" e até "diacho", como falam meus tios, como se o demônio fosse tão burro que não percebesse a mudança do nome, e assim não pudesse se apresentar ao chamado.
Entretanto, abençoar ou render graças, a rigor, querem dizer a mesma coisa: bem-dizer para ser divinamente agraciado. Mas, por que as pessoas se valem apenas do sentido metafísico se toda mística exige uma atitude? Que sentido terá a linguagem, sem uma ação que a corrobore? Como é possível, afinal, dar graças a Deus por tudo, e nada fazer, de fato, em troca, em real agradecimento? E que significa agradecer, senão reconhecer o feito? Se Deus, realmente, sabe tudo, pois tudo vê, ele vai se contentar com o fervor ou o vazio de palavras, sem que a vida do falante expresse tamanho reconhecimento?
Bem dito seja! Bem feito também!

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