quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Acerca das Minhas Meninas


Admirar as minhas meninas faz-me lembrar os versos da música de Chico Buarque: "Olha as minhas meninas, aonde é que elas vão?...". E ouvi-la faz-me pensar no estado adolescente das minhas meninas. ...Interessante! Parece que nossas meninas nunca deixam de ser meninas, para nós. Intrigante, porém: parece que na adolescência elas não querem mais ser meninas e descobrem antes de nós que também não serão sempre nossas. Então elas começam a escapar ao nosso cerco. Mas isto nós só percebemos quando elas “saem sozinhas [fora] das notas” de qualquer canção. Somente assim, talvez, percebemos que elas só “são minhas, tão minhas na minha ilusão”, no poema que faço, na imagem que traço e na educação que lhes dou. Mas, seria a nossa educação uma cerca? 


Talvez, já que educar requer o estabelecimento de limites. E o medo de perda nos faz cercar de cuidados as nossas crianças. Contudo, na adolescência, elas não querem mais tantos cuidados, porque não querem mais ser crianças. É que a adolescência parece constituir-se num estágio de transição. Um estado de puro movimento: no qual o adolescente já não é mais criança, contudo, ainda não é adulto. Indefinição que gera uma dificuldade aos próprios adultos, como a indeterminação de direitos e deveres do adolescente frente aos pais, que dizem: “você não tem mais idade para usar essa roupa”; enquanto, confusamente, também afirmam: “você já tem idade bastante para escolher sua própria roupa!” Talvez, por isso, o grande drama do adolescente seja a sua própria identidade, a busca do encontro consigo mesmo. É um momento comparável ao do casulo: que ainda não é borboleta nem é mais lagarta; porém espera não apenas pela substituição da velha roupagem para expor uma nova, mas fundamentalmente pela manifestação de um novo ser.
Parece que na adolescência o ser do indivíduo se expande tal qual a borboleta que já não cabe no seu próprio casulo, tornando-se maior que o próprio corpo. Eis a exigência de liberdade. O ser adolescente se sente no cativeiro do próprio corpo cujo crescimento não acompanhou a sua expansão fenomenológica, intelectual, psicológica. O seu mundo já não cabe em si. Por isso nada identifica melhor o adolescente do que a rebeldia, que tem como pressuposto a busca de liberdade: ...a ânsia de se livrar da cerca da nossa educação.
Eis, pois, duas características básicas da adolescência: a ideia de liberdade e o comportamento ansioso.  O adolescente tem pressa de liberdade. Porque ele se sente preso pelas regras familiares, pelas normas sociais, pela escassez financeira imposta pelo consumismo capitalista. Nesse sistema tende-se a confundir liberdade com realização das vontades, satisfação dos desejos, das pseudonecessidades criadas pelo sistema. Então, os libertários tornam-se avessos a proibições, exceto àquela que proíbe proibir. Eles acreditam que ser livre é cada um satisfazer seus próprios desejos sem ter que dar satisfações a ninguém. Algo como na Sociedade Alternativa, de Raul Seixas, cujo princípio é: “faça o que tu queres, pois é tudo da lei.” Entretanto, eles não percebem que a realização do desejo do outro pode colidir com a do seu próprio desejo. E, então, qual deverá ser realizado? 
Todavia, ante a dificuldade de responder a tal questão, teórica e praticamente, e uma vez incorporadas as tantas pressões cotidianas em casa, na escola, nas escolhas de amizade, de namoro, de profissão etc. alguns jovens chegam a julgar que a liberdade é uma ilusão, visto que se choca com as normas, exigindo sempre a responsabilidade dos seus atos. Nesse sentido, se as normas são necessárias para o convívio social, então inexiste liberdade, pois, segundo esse entendimento, onde há necessidade que gere uma obrigação ou proibição, não há liberdade. E se não há liberdade, para que a pressa? Eis porque, geralmente, a ânsia transforma-se em comodismo; e a rebeldia em decepção. 

Um comentário:

ahmina disse...

Painho, tentei postar o vídeo do Georege Mustaki, mas não consegui então mandei pro orkut de Ari
=]

Beijãoo
Saudades!!
=*

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