sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Ensinar com paixão

O filósofo Santo Agostinho diz que ao falarmos estamos sempre ensinando algo. Que é por isso que falamos: para ensinar. Mesmo quando perguntamos, estamos ensinando ao outro sobre o nosso desejo de saber. Comparando, então, o tanto que falamos com o tanto que sabemos, talvez estejamos ensinando muito mais sobre a nossa ignorância do que sobre algum saber esperado pelo nosso ouvinte. O problema é: como o outro, o ouvinte, nosso interlocutor, pode constatar que ouviu mais ignorância do que saber? 
Talvez esta reflexão nos remeta imediatamente à situação dos jovens, aprendendo sobre a vida prática, nas ruas, com outros jovens mais experientes. Pois parece ser sobre as coisas práticas da vida que carecemos de professor. Certamente um jovem aprendiz da vida prática não tem como conferir se o que ouve dos outros é saber, de fato, ou é mera ignorância.
Fome de saber
Mas imaginemos uma situação um pouco anterior, porém mais próxima de nós: nossas crianças, no despertar da vida, perguntando-nos sobre tais assuntos, ensinando-nos sobre o seu querer saber. Como nós lhes respondemos? O que nós lhes ensinamos: o nosso saber ou a nossa ignorância? Ensinamo-lhes sobre a energia de viver ou sobre os nossos medos? Sobre as perspectivas de futuro ou sobre as nossas frustrações? Sobre a responsabilidade com o mundo ou sobre as nossas ambições pessoais?
Ora, nossas crianças não têm como conferir. Ao nos perguntar, elas já trazem um pedestal sobre o qual subimos para lhes responder na posição de pais ou de mestres. Elas acreditam que por tal autoridade teríamos também a autoridade de “sábios”. E nós nos valemos disso. Dificilmente conseguimos descer do pedestal. Ele se torna tanto mais alto quanto mais lhes damos certezas. E quando elas, no seu saber infantil, questionam nossas certezas, geralmente as corrigimos dizendo: Isto não é pergunta pra criança! Ou Ainda não chegou o seu momento de saber disso! Ou até mesmo: Eu sou seu pai! Ou Eu sou o professor. Como se dissesse quem sabe, aqui, sou eu, você não tem que duvidar; só obedecer.
Entretanto, não percebemos que quanto mais alto o pedestal de autoridade, maior a distância entre o mestre e o aprendiz. Daí, como elas podem constatar o nosso ensinamento? A quem elas podem recorrer? Restam os colegas da rua, que lá estão com as mesmas dúvidas, porque certamente já sofreram o mesmo distanciamento do pedestal de seus pais e mestres. Então, a fome de saber os coloca à mercê dos mais velhos, mais experientes. E agora?! Que fazer? A quem reclamar a educação das nossas crianças? À Escola?
Saber é poder
É papel da Escola a educação prática da vida? A Escola nos prepara para a vida teórica: os conceitos, os nomes das coisas, a classificação dos seres, o conhecimento da Natureza, a explicação dos fenômenos do mundo, os modos corretos dos usos da língua que falamos, os modos de quantificar coisas, aumentar, distribuir etc. No entanto, as pessoas vivem independentemente desse saber teórico. Por vezes até, possuir tal saber não significa viver melhor do que quem possui apenas o saber prático, da boa relação com os outros, da responsabilidade com o mundo.
Talvez seja um tributo muito alto atribuir aos pais a má educação dos filhos. Mas, considerando o princípio segundo o qual conhecer é poder, o pai, que de antemão sabe mais que o filho, tem poder de ensino sobre este. Ora, quem tem o poder tem também a responsabilidade sobre a educação. Em outras palavras: quem detém mais saber detém também a responsabilidade do educar. Entretanto, talvez se possa alegar que os pais, embora detenham mais saber que os filhos, infelizmente, nem sempre têm a consciência de tamanha responsabilidade: educar bem os filhos, isto é, educa-los para o mundo, visando sempre melhora-lo para as futuras gerações. 
Saber e responsabilidade
Como educar para a cidadania? Como tornar cidadãos os nossos jovens?  Eis o apelo à educação. Para tanto, faz-se mister saber, com Aristóteles, que “a excelência moral relaciona-se com prazeres e dores; e é por causa do prazer que praticamos más ações e por causa da dor que nos abstemos de ações nobres”. Por isso, o discípulo Aristóteles concorda com o mestre Platão, que já nos advertia acerca da necessidade de se educar desde a juventude, em vista do deleite com coisas com as quais devemos nos deleitar, e do sofrimento naquilo com o que devemos sofrer. 
Permitam que seus filhos aprendam a ter compaixão

Ensinem os seus filhos  (...) com paixão.
(Compaixão; Nenhum de Nós)

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